Alto Tâmega e Barroso lidera o crescimento do emprego no interior do Norte, Chaves e Bragança destacam-se entre os municípios com maior aumento do emprego registado. Terras de Trás-os-Montes dispara nas exportações e no turismo. Os dados da CCDR NORTE mostram uma economia regional mais dinâmica, mas também revelam desafios que não podem ser ignorados.
A economia do Norte entrou no segundo trimestre de 2026 com sinais globalmente favoráveis, mas é no interior da Região que alguns dos indicadores assumem particular relevância. Trás-os-Montes e Alto Douro estão a crescer em várias frentes, com aumentos do emprego, redução do desemprego, forte progressão das exportações e uma dinâmica turística particularmente expressiva em Terras de Trás-os-Montes.
Os dados constam da mais recente edição do Norte Conjuntura, publicação da CCDR NORTE que acompanha trimestralmente a evolução económica da Região, e permitem traçar um retrato muito mais complexo do que o simples crescimento global da economia. O documento mostra que os sinais positivos não ficaram confinados ao litoral e tiveram expressão significativa nos territórios do interior.
No conjunto da Região Norte, a população empregada aumentou 2,1% em termos homólogos, o equivalente a mais 37,2 mil pessoas com emprego, enquanto a taxa de desemprego caiu para 5,7%. O salário médio mensal líquido dos trabalhadores por conta de outrem chegou aos 1.289 euros, com um crescimento real de 3,7%, superior aos 3,3% registados a nível nacional.
Mas é quando se desce ao território que surgem alguns dos dados mais significativos para Trás-os-Montes e Alto Douro.
ALTO TÂMEGA E BARROSO COM O MAIOR CRESCIMENTO DO EMPREGO NO INTERIOR
Entre as oito sub-regiões do Norte, Alto Tâmega e Barroso apresentou o crescimento homólogo mais elevado do emprego registado na Segurança Social: 2,9%.
A sub-região passou de 27.370 pessoas com emprego registado no segundo trimestre de 2025 para 28.159 no mesmo período de 2026, uma diferença de 789 trabalhadores. Terras de Trás-os-Montes também cresceu, atingindo 37.790 empregos registados, mais 473 do que um ano antes, enquanto o Douro chegou aos 67.119, com um aumento de 1,7%.
O desempenho ganha ainda maior expressão quando analisado município a município.
Chaves registou um crescimento de 3,5% no emprego registado, passando de 13.046 para 13.503 pessoas, mais 457 trabalhadores. É, segundo a CCDR NORTE, o maior crescimento percentual entre os principais municípios considerados na análise, superando inclusive Bragança, que cresceu 2,6%, para 14.539 empregos registados. Vila Real aumentou 1,7%, para 20.689.
É um dado particularmente relevante para o Alto Tâmega: Chaves surge entre os municípios do Norte com melhor desempenho no crescimento do emprego, contrariando leituras que associam automaticamente os territórios do interior a uma evolução económica mais frágil.
DESEMPREGO EM QUEDA EM TODO O INTERIOR
A evolução do desemprego reforça a leitura positiva. O desemprego registado pelo IEFP diminuiu nas oito sub-regiões do Norte. No Alto Tâmega e Barroso caiu 11,6%, passando de 2.924 desempregados no segundo trimestre de 2025 para 2.585 no mesmo período deste ano.
Em Terras de Trás-os-Montes, a redução foi de 10,6%, para 3.569 desempregados, enquanto no Douro a descida chegou aos 14,8%, para 7.549 pessoas.
No conjunto do Norte, 76 dos 86 municípios tinham menos desempregados inscritos do que um ano antes. Ou seja, a redução não está limitada aos grandes centros urbanos: alcança também os territórios de menor densidade.
A tendência é acompanhada por outro indicador importante: a população empregada com contrato sem termo aumentou 3%, ao passo que os contratos a termo diminuíram 8,6%. O crescimento do emprego a tempo completo foi igualmente decisivo, com mais 36,4 mil trabalhadores nessa situação.
TERRAS DE TRÁS-OS-MONTES DISPARA NAS EXPORTAÇÕES
É, contudo, no comércio internacional que surge um dos números mais impressionantes para a região.
Terras de Trás-os-Montes registou um crescimento homólogo de 39,8% nas exportações de bens, o valor mais elevado entre todas as sub-regiões do Norte.
As exportações da sub-região passaram de cerca de 138 milhões para 193 milhões de euros, um acréscimo de aproximadamente 55 milhões de euros num ano.
O desempenho do Alto Tâmega e Barroso também merece destaque: as exportações cresceram 10,7%, embora partindo de uma base substancialmente inferior, para cerca de 24 milhões de euros.
O Douro teve, em sentido contrário, uma evolução negativa neste indicador, com as exportações a recuarem 18,5%, para cerca de 20 milhões de euros. O contraste mostra que a recuperação económica do interior está longe de ser homogénea e que existem diferenças significativas entre setores e territórios.
Ainda assim, o dado de Trás-os-Montes é particularmente expressivo: a região não está apenas a consumir ou a receber visitantes; está também a reforçar a sua capacidade de vender para os mercados externos.
O TURISMO MOSTRA OUTRO INTERIOR
Também no turismo os dados contam uma história particularmente interessante. As dormidas cresceram 12,3% em Terras de Trás-os-Montes, o maior aumento percentual entre todas as sub-regiões do Norte. Foram registadas 82.663 dormidas, mais 9.070 do que no segundo trimestre de 2025. E há um dado ainda mais significativo: oito dos nove municípios da sub-região registaram crescimento.
No Douro, depois de uma quebra de 2,5% no trimestre anterior, as dormidas recuperaram e cresceram 4,4%, para 203.784.
Já o Alto Tâmega e Barroso foi a exceção entre os territórios do interior analisados, com uma redução de 2,3%, para 93.691 dormidas.
A leitura regional, portanto, exige algum cuidado: o turismo transmontano está a ganhar força, mas essa dinâmica não é uniforme, e o Alto Tâmega e Barroso apresenta neste trimestre um comportamento diferente do observado em Terras de Trás-os-Montes e no Douro.
HABITAÇÃO: MAIS CONSTRUÇÃO, MAS TAMBÉM MAIS PRESSÃO SOBRE OS PREÇOS
Outro dos grandes sinais da conjuntura económica do Norte está na habitação.
No segundo trimestre foram licenciados 5.696 novos fogos para habitação familiar, mais 17,1% do que no mesmo período do ano anterior e o valor mais elevado desde o início da série estatística, em 2007. Os fogos concluídos cresceram 18,4%.
Mas existe uma contradição importante: a avaliação bancária da habitação aumentou 16,7%, para um valor mediano de 1.889 euros por metro quadrado. Ao mesmo tempo, a inflação acelerou para 3,1%, sobretudo devido à subida dos preços da energia.
É precisamente aqui que a conjuntura deixa de ser apenas uma sucessão de números positivos. Mais emprego, mais rendimento e mais construção coexistem com uma habitação mais cara e com custos que continuam a pressionar famílias e empresas.
UMA ECONOMIA MAIS FORTE, MAS COM SINAIS A EXIGIR ATENÇÃO
O retrato final da CCDR NORTE é, por isso, simultaneamente positivo e exigente.
A Região exportou mais 3,9%, para cerca de 7 mil milhões de euros, mas as importações cresceram 9,3%, fazendo o saldo comercial passar de um excedente de 310 milhões de euros para um défice de 21 milhões.
Também o emprego apresenta uma nuance importante: embora tenha aumentado, 32,3 mil das 37,2 mil novas pessoas empregadas tinham 55 ou mais anos. Já o emprego entre os 16 e os 24 anos recuou 1%, enquanto a taxa de desemprego jovem permaneceu muito elevada, nos 15,7%.
Há ainda um sinal de alerta na indústria transformadora, que perdeu 3.500 empregos no Norte e registou uma redução real de 2,5% no salário médio do setor.
O INTERIOR ESTÁ A DAR SINAIS E OS NÚMEROS OBRIGAM A OLHAR PARA ELE DE OUTRA FORMA
A principal conclusão para Trás-os-Montes e Alto Douro talvez esteja precisamente na dispersão dos indicadores.
Chaves cresce no emprego. Bragança também. Alto Tâmega e Barroso lidera o crescimento do emprego registado entre as sub-regiões. Terras de Trás-os-Montes destaca-se simultaneamente no turismo e nas exportações. O Douro recupera no turismo e reforça o emprego. O desemprego cai em todos estes territórios.
Não significa que os problemas estruturais tenham desaparecido. Não significa que a região tenha resolvido a perda demográfica, a distância dos grandes mercados, a escassez de mão de obra qualificada, os baixos rendimentos em vários setores ou as dificuldades de acesso a serviços.
Mas significa outra coisa, talvez mais importante para o futuro: os indicadores económicos começam a contrariar a ideia de um interior condenado à estagnação.
O próprio documento da CCDR NORTE é claro ao concluir que os sinais positivos da conjuntura não se limitaram aos principais centros económicos do litoral, tendo uma expressão territorial alargada, embora com diferentes intensidades.
E é precisamente nessa diferença que está o desafio de Trás-os-Montes e Alto Douro: transformar crescimento conjuntural em desenvolvimento estrutural, emprego em fixação de população, turismo em valor acrescentado e exportações em capacidade empresarial duradoura.
Os números do segundo trimestre de 2026 não permitem anunciar uma vitória. Permitem, isso sim, afirmar algo que há muito é essencial para o interior: há sinais concretos de dinamismo económico e eles já são suficientemente fortes para que Trás-os-Montes e Alto Douro sejam analisados não apenas pelos seus problemas, mas também pela capacidade que estão a demonstrar para criar atividade, emprego e riqueza.
Jornalista: Paulo Silva Reis
Foto: DR




















