Os “Factos vistos à Lupa” por André Pinção Lucas e Juliano Ventura – Uma parceria do Canal N com o Instituto +Liberdade
40 anos depois, a Presidência volta à segunda volta
A primeira volta das Presidenciais de 2026 confirmou um cenário invulgar na história democrática portuguesa. António José Seguro foi o candidato mais votado, com 31,1% dos votos validamente expressos, mas ficou longe da maioria absoluta (50%+1) exigida para a eleição imediata. O resultado remete a decisão para 8 de fevereiro, num confronto direto com o segundo classificado, André Ventura (23,5%).
A fragmentação fica ainda mais clara quando se olha para o “meio da tabela”: João Cotrim de Figueiredo terminou em terceiro (15,9%), Henrique Gouveia e Melo ficou próximo (12,3%) e Luís Marques Mendes seguiu-se (11,3%), entre outros candidatos. Em conjunto, estes resultados mostram um eleitorado repartido por vários perfis, com pouco espaço para vitórias esmagadoras.
Esta necessidade de segunda volta é excecional. Desde 1976, a regra tem sido a decisão à primeira, com maiorias claras em torno do vencedor. A única eleição em que a maioria absoluta falhou tinha ocorrido em 1986 — e a comparação ajuda a medir a dimensão do momento atual.

Em 1986, Diogo Freitas do Amaral venceu a primeira volta com 46,31%, enquanto Mário Soares ficou em segundo com 25,43%. Duas semanas depois, o eleitorado reconfigurou-se: Soares acabou por vencer a segunda volta com 51,18%, numa das disputas mais renhidas do período democrático.
Quarenta anos depois, a fragmentação do eleitorado é ainda mais evidente. O mais votado ficou nos 31,1%, o valor mais baixo de sempre para um primeiro lugar numa primeira volta presidencial, sinal de um consenso mais difícil em torno de uma candidatura. O que antes era uma corrida normalmente resolvida em janeiro transforma-se, agora, num teste decisivo de alianças, mobilização e rejeições cruzadas — com impacto num cargo que, apesar de não governar, pode vetar diplomas e até dissolver o Parlamento em momentos de crise, tendo ainda forte influência na dinâmica política e parlamentar.
A 8 de fevereiro, mais do que escolher um nome, o país escolherá também como recompor um mapa político cada vez mais disperso.
André Pinção Lucas e Juliano Ventura
19 de janeiro de 2026


















