Em Montalegre, o cheiro a lenha e a carne curada continua a anunciar o inverno, mas há algo de novo a crescer entre as chaminés tradicionais do Barroso: uma nova geração de produtores de fumeiro, que conjuga saber antigo com inovação e dá novo fôlego a uma das mais emblemáticas tradições do Norte do país. Às portas da 35.ª Feira do Fumeiro de Montalegre, que decorre de 22 a 25 de janeiro, o concelho revela uma vitalidade inesperada, feita de juventude, continuidade e visão de futuro.

Na Aldeia Nova do Barroso, a família Costa prepara o certame há meses, num ritmo intenso que não conhece pausas. Entre enchidos a secar e encomendas a cumprir, destaca-se Maria João Costa, de apenas 24 anos, a produtora mais jovem desta edição. Pela primeira vez, o fumeiro que leva à feira terá um ‘stand’ com o seu nome, ainda que a sua ligação ao evento seja quase tão antiga quanto a própria vida: marca presença desde bebé.

Licenciada em Gestão, a jovem divide o tempo entre o mestrado em Administração Pública, o trabalho como técnica superior e a produção de fumeiro, uma herança familiar que atravessa gerações.

“É um negócio que vem de geração em geração. A minha avó já fazia, as minhas tias e a minha mãe também, e acho que esta tradição não deve ficar por aqui. Até porque é das melhores coisas que temos no Norte”, afirma.

Para Maria João, a inovação não passa por alterar receitas ou processos ancestrais, mas por alargar horizontes. “Na qualidade não acrescentamos nada, isso já é excelente, mas podemos ajudar a expandir o negócio, sobretudo a nível ‘online’. Muitos produtores mais antigos sentem dificuldades com a tecnologia, e nós podemos ser uma ponte”, explica.

Com cerca de 30 porcos destinados ao fumeiro, além de 200 sêmeas, unidade tradicional usada na confeção das alheiras, a jovem vive agora a fase mais exigente do ano. Entre estudos para exames e longas horas de trabalho, o rigor é absoluto.
“Não usamos corantes nem conservantes. Isso obriga a um cuidado acrescido: secar bem, limpar, evitar o bolor. Queremos levar tudo nas melhores condições possíveis”, garante.

A poucos metros, Joaquina Costa, de 63 anos, observa a azáfama com a autoridade tranquila de quem conhece o ofício como poucos. É apontada como a “capataz” da família e não esconde o orgulho no legado construído.

“Fui eu que comecei e levei a família toda atrás de mim. Só faltei dois anos à Feira do Fumeiro. Já lá vou há 33”, conta. Hoje, só a família Costa ocupa nove ‘stands’ no certame.

Joaquina começou aos 14 anos, a ajudar a mãe a criar “dois ou três porquinhos”. Atualmente, transforma cerca de 10 animais por feira, o que corresponde a cerca de 50 quilos de enchidos e derivados. O mercado mudou, reconhece, mas para melhor.

“Agora temos muito mais encomendas. Há clientes certos, de há muitos anos, que vêm buscar aos quilos. Já não é como dantes, uma chouriça aqui, outra ali”, recorda.

Apesar da dificuldade em encontrar mão de obra externa, Joaquina vê o futuro com confiança. Os sobrinhos e o filho seguem-lhe os passos, aprendendo um saber que se transmite mais por gestos do que por palavras.

“A nossa gente vai continuar. A minha mãe ensinou-me a mim e às minhas irmãs, e nós agora ensinamos os nossos filhos. É assim que isto não se perde”, afirma.

Este movimento de renovação é observado com satisfação pela autarquia. Montalegre conta atualmente com cerca de 50 produtores de fumeiro, muitos deles jovens, uma realidade que deixa a presidente da câmara, Fátima Fernandes, otimista.
“É um sinal tranquilizador. Os jovens percebem que esta é uma atividade dura, que exige muito trabalho, mas que também permite um rendimento significativo ao longo do ano”, sublinha.

O concelho beneficia ainda de mais de 15 milhões de euros em apoios do IFAP, distribuídos por cerca de 2.400 explorações agrícolas, num território que se afirma pela resiliência.

“Montalegre mantém a tradição aliada à inovação. Apostamos no que é genuíno e autêntico, mas também numa visão moderna. Felizmente, há muita gente jovem na Feira do Fumeiro, a dar uma dinâmica nova, uma visão fresca”, conclui a autarca.

Entre o fumo que cura e a juventude que reinventa, Montalegre prova que a tradição não é um ponto de chegada, mas um caminho que se constrói, geração após geração, com orgulho, trabalho e futuro.

A Redação com Lusa
Fotos: DR

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