O antigo forno comunitário de Vilar de Perdizes voltou a ganhar vida nesta Páscoa, reafirmando uma tradição ancestral: cozer o folar e transmitir saberes entre gerações.

Entre quinta-feira e sábado, a comunidade reuniu-se em torno do grande forno de pedra, num ambiente marcado pela partilha de memórias e ensinamentos. Em Montalegre, onde ainda existem 56 fornos tradicionais, esta prática tem vindo a ser recuperada nos últimos anos, sobretudo nesta época festiva.
Aos 86 anos, Secundina Oliveira continua a ser uma referência na confeção do folar, receita que aprendeu com a mãe e que hoje ensina aos mais novos. Já José Artilheiro, antigo padeiro, assegura o controlo do forno, tarefa exigente que requer experiência para garantir a cozedura perfeita.
Secundina Oliveira, 86 anos, aprendeu a fazer o folar com a mãe e, agora, ensina. Sabe a receita a olho, sem necessitar de balança ou quantidades predefinidas, e sabe quando a massa está pronta.
Já não tem força para a bater, tarefa que deixa para as mais novas, mas depois espalma a massa separada em pedaços mais pequenos, põe as carnes fumadas no meio e enrola-a.
José Artilheiro, 52 anos, é o homem que, por estes dias, cuida do forno. Dias antes começa a pôr lenha para ir aquecendo, uma tarefa demorada por causa da espessura das pedras e pela dimensão.
“Tem que se saber mais ou menos a temperatura que ele apanha, para não ficar muito quente e não queimar e também não ficar frio, ou não ficam cozidos”, explicou.
Depois de tudo pronto, é também José, antigo padeiro, que mete os folares lá dentro e vai, depois, espreitando para não deixar queimar a iguaria.
Secundina Oliveira aguarda pelo forno cheio para a tradicional reza e para que, explicou, “Deus os acrescente e saia bom pão”.
“Tem que se dizer cresça o pão no forno, saúde a seu dono, muito bem pelo mundo todo, pai-nosso pelas almas e depois reza-se o Pai Nosso”, contou.
Por fim, antes de sair atirou: “Está cheio e bem cheio, desde lá de cima”.
O folar é uma iguaria que marca presença obrigatória em praticamente todos os lares transmontanos durante a celebração da Páscoa, e é feito com ovos, farinha, azeite e várias carnes como presunto, salpicão ou linguiça.
Na quinta-feira, o forno do povo foi usado por funcionários e utentes do Centro Social e Paroquial de Vilar de Perdizes, mas aos mais velhos juntaram-se também os mais novos desta aldeia.
Anamar Dias, 15 anos, participou pela primeira vez e disse que gostou da experiência. “Ensina-nos muito sobre as nossas tradições e acho que toda a juventude devia conhecer esta tradição”, referiu, contando que nunca tinha feito folares.
Ariana Santos, 17 anos, costumava confecionar o folar em casa com os avós padeiros, mas nunca tinha vindo ao forno do povo e gostou da experiência e da partilha com os mais velhos.
“As tradições vão passando de geração em geração com estas atividades”, realçou.
Benedita Bernardes, 14 anos, regressou este ano ao forno do povo. “Para além de ajudarmos a fazer também aprendemos. Os mais velhos ensinam-nos como faziam antigamente e depois nós podemos ensinar aos próximos”, referiu.
O padre António Dias, presidente do centro social, disse que a instituição tem 70 idosos e que “cada rosto é uma história” e que “essa história está carregada de saber”.
Por isso, disse que a presença dos mais velhos no forno do povo ajuda na transmissão dessa riqueza, realçando que esta é também uma atividade que os motiva sempre porque é “meter as mãos na massa”.
Reativar o forno permite, salientou, “mostrar aquilo que era antigamente”.
“Os pobres, era aqui que vinham aquecer-se, era aqui que vinham comer. Ter aqui este corrupio nestes três dias valoriza o nosso património”, salientou, acrescentando que o “folar era o pão de festa”.
António Dias referiu ainda que os folares são também distribuídos pelos utentes do serviço domiciliário da instituição.
Em Vilar de Perdizes há três fornos do povo que, antigamente, eram usados diariamente, mas que foram entrando em desuso devido ao aparecimento das padarias e à diminuição dos habitantes.
Nuno Moura, vice-presidente da União de Freguesias de Vilar de Perdizes e Meixide, contou que a aldeia tem tradição no pão e nos folares e, por isso, quis-se dinamizar o seu património.
“Fazia todo o sentido”, frisou, referindo que, desde 2021, o forno do povo é usado pela população que se organiza em grupos. A lenha é disponibilizada pela junta.
Este forno é também usado aquando do Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes, que se realiza no verão, que foi lançado pelo padre António Fontes.

Mais do que um espaço de cozedura, o forno do povo volta a assumir-se como ponto de encontro e símbolo de comunidade, onde o folar continua a ser o pão de festa da Páscoa.

A Redação com Lusa
Fotos: DR

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