No meio da paisagem agora pintada de negro, deixada pelos incêndios que recentemente devastaram a Serra do Alvão, no distrito de Vila Real, uma referência local permaneceu de pé, intacta, quase que por “milagre”. “A Cabana”, um pequeno café de madeira à beira da estrada que atravessa o Parque Natural do Alvão, conhecido ponto de encontro para várias gerações da região, sobreviveu às chamas que recentemente consumiram grande parte da vegetação envolvente. À sua volta, tudo está escuro, queimado, destruído. Mas “A Cabana” permanece de pé, como se o fogo tivesse escolhido poupá-la.

Situada junto à estrada N312, no coração do Alvão, “A Cabana” é há 46 anos um símbolo da serra. Construída em madeira, decorada com artefactos antigos e rodeada pelas árvores, o espaço tornou-se, ao longo das décadas, um marco local e um destino habitual para famílias, caminhantes e turistas. Muitos dos que hoje ali param são filhos daqueles que o faziam há décadas.

Virgínia Dinis e o seu marido são, desde a raiz, os únicos proprietários do espaço. Naturais de Vila Real, Virgínia Dinis revela que “A Cabana” nasceu de um sonho. “Foi um sonho. Um projeto que o meu marido sonhou e quis fazer. E fez (…) Compramos o terreno à junta e construímos os dois, tudo do zero” conta. “A Cabana”, conhecida pela sua identidade singular, é decorada por “Coisinhas antigas. Tudo o que for antigo para nós é bonito”, afirma a proprietária, que já há 46 anos que vai colecionando os artefactos no espaço.

Recentemente, Virgínia Dinis e o seu marido viveram de perto, o incêndio que tomou conta da Serra do Alvão, deixando Vila Real em sobressalto, durante um período que o Autarca, Alexandre Favaios, descreveu como “calamidade”, em que o concelho se encontrava “a arder em lume brando”. O fogo, que lavrou durante dias com intensidade, consumiu tudo em redor da Cabana.

Virgínia Dinis recorda o episódio com a emoção de quem presenciou cada avançar das chamas. De um lado, os proprietários da Cabana observavam a outra direção, onde as chamas consumiam o verde que antes pintava a paisagem. Apenas a estrada, com poucos metros, os separava, dois lados distintos, com dois cenários diferentes.

“O incêndio foi uma loucura… Foi uma loucura. Um desespero e um milagre ao mesmo tempo. Nós estávamos aqui. Ia passar a volta dos ciclistas, tinha aqui muita gente, até deitados. Muita gente mesmo. Estávamos aqui com as chamas do outro lado da estrada, depois tive de sair com as minhas netas, que gritavam muito. Mandaram-me sair. Mas o meu marido e o meu filho ficaram. Ali atrás da casa, a 5 metros da casa ardeu. Tínhamos lá uma cisterna com água, foi o que valeu. Porque os bombeiros que se aproximaram ficaram logo sem água. Foi um milagre” descreve a proprietária.

Depois do episódio, quando os acessos foram reabertos, começaram a chegar os primeiros visitantes, muitos apenas para confirmar com os próprios olhos que o café continuava de pé. A estrutura, de madeira que contrasta com o cenário verde daquele lado da estrada, permanece inalterada. “Vem muita gente ver. Vem-me dar um abraço. Um abraço de força e ver que realmente “A Cabana” está cá, apesar de ter ardido tudo” conta, reforçando que a situação “Foi realmente uma loucura, ao mesmo tempo arder tanto”. Embora em anos anteriores já tenham havido episódios semelhantes, em que focos de incêndio deflagram no Alvão, para a proprietária este foi, sem dúvida, o ano “mais negro”. “Não me lembro de algo assim. A extensão que foi, tudo, foi demais” afirma.

A proprietária revela ainda que, na sua perspectiva, foram várias as coisas que falharam para conter o incêndio. “Havia muitos bombeiros, muitos helicópteros, mas havia falta de coordenação, de logística. Com uma lagoa ao lado e arder o Parque Natural”. Para prevenir que a situação se volta a repetir, Virgínia Dinis considera que “Deve-se cuidar. O que plantarem, cuidarem das coisas que plantam. E o que nasce também. Conservar, que não limpam nada, nem querem saber.” Virgínia deixa ainda uma última nota sobre a reposta tardia na resolução dos danos deixados pelas chamas. “Desde o dia 10, arderam os cabos de telefone, da televisão, da internet. Ainda não vieram repor o serviço no comércio. Arderam-nos os tubos principais da água, mas isso vamos compondo aos poucos, mas essa parte que não é connosco, que pagamos para isso, estamos sem nada. Isolados no tempo, em volta do preto”.

Apesar das marcas que foram deixadas para trás, os proprietários, os mesmos desde a sua fundação, viram no projeto um sonho familiar que resistiu ao tempo, e agora também ao fogo. Para muitos, “A Cabana” é mais do que um café: É parte da identidade do Alvão. Mesmo com a destruição envolvente, “A Cabana” reabriu portas assim que foi seguro fazê-lo. O contraste entre o espaço preservado e o cenário queimado que o rodeia tem sido registado por visitantes, que se deslocam ao local de propósito para verem, com os seus próprios olhos, o local.

A proprietária garante que o espaço continuará a receber todos como sempre, com o mesmo espírito, apesar de tudo ter mudado em redor. E enquanto a paisagem cicatriza, “A Cabana” continua, como sempre, no mesmo sítio, com a identidade que a caracteriza já há 46 anos.

Jornalista: Vitória Botelho

Fotos: Vitória Botelho

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