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A carga fiscal sobre o trabalho aumentou em Portugal nas últimas duas décadas. A comparação entre a taxa efetiva de IRS aplicada em 2025 e a que incidia sobre rendimentos equivalentes em 2003, corrigidos pela inflação, mostra que os contribuintes entregam atualmente uma parcela maior do seu rendimento ao Estado em todos os níveis salariais analisados.

Considerando o caso de um trabalhador solteiro e sem filhos, um salário base bruto mensal de 1.000 euros está sujeito, em 2025, a uma taxa efetiva de IRS de 7,6%. Em 2003, para um rendimento com o mesmo poder de compra, a taxa efetiva era de 6,1%. Trata-se de um aumento de 1,5 pontos percentuais, o maior acréscimo relativo entre os escalões considerados.

A tendência repete-se nos rendimentos intermédios. Um salário bruto mensal de 1.500 euros passou de uma taxa efetiva de 11,9% para 12,4%. Nos 2.000 euros, a taxa aumentou de 14,9% para 15,6%. Já nos 2.500 euros, a tributação efetiva subiu de 18,5% para 19,0%. Também nos 3.000 e 4.000 euros mensais se verificam aumentos, embora mais moderados, passando respetivamente de 21,1% para 21,5% e de 24,3% para 25,2%.

Nos salários mais elevados, a carga fiscal também cresceu. Um rendimento bruto mensal de 5.000 euros suporta atualmente uma taxa efetiva de IRS de 28,1%, acima dos 26,9% registados para o valor equivalente em 2003. Nos 10.000 euros mensais, a taxa efetiva passou de 33,2% para 35,7%, correspondendo ao maior aumento em termos absolutos entre os escalões analisados.

Os dados evidenciam que a evolução do IRS não acompanhou apenas a inflação. Apesar das sucessivas alterações legislativas e da atualização dos escalões ao longo dos anos, a tributação efetiva sobre o trabalho tornou-se mais pesada para todos os níveis de rendimento considerados.

Outra conclusão relevante é que os maiores aumentos ocorreram nos extremos da distribuição salarial. Tanto os trabalhadores com rendimentos mais baixos como aqueles com rendimentos mais elevados registaram os agravamentos mais significativos da taxa efetiva de IRS. Isto significa que, independentemente do nível salarial, uma parcela maior do rendimento gerado pelo trabalho é hoje canalizada para o Estado através deste imposto do que acontecia há cerca de vinte anos.

Num contexto em que os salários reais continuam a ser um dos principais desafios da economia portuguesa, estes dados ajudam a compreender porque razão muitos trabalhadores sentem que uma parte crescente dos ganhos obtidos através do seu trabalho não se traduz em rendimento disponível.

André Pinção Lucas e Juliano Ventura

22 de junho de 2026

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