O objetivo da iniciativa é salvar a língua mirandesa do perigo de extinção que esta tem vindo a enfrentar ao longo dos últimos anos. O Primeiro Conselho Geral pela Língua Mirandesa vai decorrer dia 27 de dezembro no Auditório Municipal de Miranda do Douro.

Um estudo académico concluiu que o Mirandês, segunda língua oficial de Portugal, desaparecerá como língua viva nos próximos 30 anos se nada de extraordinário for feito. Daí nasce a ideia de criar um Conselho Geral pela Língua Mirandesa, um encontro que tem como intuito salvar esta língua e enaltecê-la.

“A Língua Mirandesa é um extraordinário recurso que nos foi legado pelos nossos antepassados, o produto da inteligência e do conhecimento de um povo que construiu e o fez crescer ao longo de muitos séculos” refere Helena Barril, presidente da Câmara Municipal de Miranda do Douro, em comunicado enviado à redação do Canal N.

A autarca acrescenta que “temos de ser dignos desse legado e tudo fazer, não só para evitar o seu desaparecimento, mas também para o promover e o engrandecer. Seria um absurdo que na sociedade do conhecimento em que vivemos, deixássemos extinguir la nuossa lhéngua“.

Desta forma, a autarquia mirandesa adotou e implementou uma estratégia que tem como principal função inverter a tendência para o desaparecimento do Mirandês.

“Queremos juntar e envolver todos os parceiros relevantes, nomeadamente os falantes, as instituições culturais da Terra de Miranda, os escritores, as instituições de ensino e, em geral, todos aqueles que entendam que têm algum contributo a dar, por modesto que seja, para salvarmos o mirandês enquanto língua de comunicação e para o engrandecermos e dignificarmos” informa, ainda, o comunicado.

Entre os temas que estarão em cima da mesa destacam-se:

1.  Principais causas do perigo de extinção do Mirandês como Língua materna;

2.  Potencial Económico do Mirandês. O Mirandês como fator de desenvolvimento económico;

3.  O Mirandês deve ser a primeira ou a segunda Língua na Terra de Miranda?

4.  Possíveis tópicos para uma revisão da lei do Mirandês

5.  Como trazer o Mirandês para ser falado na cidade de Miranda do Douro

6.  Qual o papel das universidades da preservação e no desenvolvimento do Mirandês

7.  Quais as vias para o desenvolvimento do Mirandês na escola?

8.  Qual o papel do Mirandês na música;

9.  Qual o papel do Mirandês nos pauliteiros e nas danças?

A decorrer no próximo dia 27 de dezembro, pelas 14h00, no Auditório Municipal de Miranda do Douro, o Conselho é aberto a toda a comunidade e quem quiser ter a palavra pode fazê-lo. As inscrições podem ser feitas através de um questionário, ou então através do e-mail: [email protected].

“Essa inscrição prévia não é obrigatória, mas quem a fizer, ajuda-nos a preparar a organização do Purmeiro Cunceilho Giral e reserva já o tempo necessário para fazer a sua apresentação. De qualquer forma, quem não quiser fazer essa prévia inscrição, sempre poderá pedir para fazer a sua apresentação até ao momento da própria realização do Conselho”, informa a nota de imprensa.

Depois deste Conselho Geral, a autarquia ambiciona “elaborar um Plano Estratégico para a Língua Mirandesa, com os contributos de todos, que sirva de base para uma Política para a Língua, da Câmara Municipal.

SOBRE O MIRANDÊS

Há 25 anos que a língua mirandesa passou a ser a segunda língua oficial de Portugal, após ter sido aprovada a lei na Assembleia da República.

“Foi um trabalho que reuniu a simpatia de todos os grupos parlamentares, com assento na Assembleia da República, naquela altura. Havia assim uma necessidade de atender ao pedido do sábio [arqueólogo e etnógrafo} José Leite de Vasconcelos, que desde de 1882, clamava por uma Lei que protegesse o mirandês”, disse à Lusa, Júlio Meirinhos, tido como mentor da chamada Lei do Mirandês.

Com esta aprovação, o idioma ter-se-á tornado mais conhecido por todo o país e até no estrangeiro, atravessando as fronteiras da Terra de Miranda, atraindo a atenção de vários linguistas e investigadores da língua e cultura mirandesa.

No entanto, só a 29 de janeiro de 1999 é que foi publicada em Diário da República a Lei que reconhecia, oficialmente, os direitos linguísticos da comunidade mirandesa.

“Foi uma tarefa determinada que tive entre mãos e que surtiu o efeito pretendido ao fim de nove meses de trabalho. Foi um trabalho de minúcia que reuniu um conjunto de apoios, desde linguistas, técnicos e comunidade académica. Acima de tudo foi um trabalho junto dos grupos de parlamentares para que a Lei do Mirandês fosse aprovada por unanimidade porque era um tema supra partidário e algo que representa alguns séculos de luta para o reconhecimento de um língua que era falada antes das nacionalidade”, fomenta o antigo deputado do PS eleito por Bragança.

Quem visitar as principais artérias de Miranda do Douro na expectativa de ouvir falar de mirandês pode não o encontrar com muita facilidade. No entanto, o mirandês poderá estar a regressar, serenamente, à cidade, trazido, não só, pelos habitantes das aldeias que vão abandonando os pequenos centros rurais, mas também pela cidade que agora se orgulha de ostentar a toponímia em mirandês.

Um estudo, realizado na Universidade de Vigo, revelou que, em março de 2020, a língua era conhecida por cerca de 3500 pessoas, das quais 1500 conseguem falar regularmente. Os principais falantes distribuem-se por uma área de 550 quilómetros quadrados, esta área é conhecida como Terra de Miranda e é formada pelo concelho de Miranda do Douro e as freguesias de Angueira e Vilar Seco, no concelho de Vimioso.

Entre as possíveis medidas de proteger e preservar a língua, está a ratificação da Carta Europeia das Línguas Minoritárias, a criação de uma nova Lei do Mirandês, atualizada de acordo com as ações e medidas planeadas e orçamentadas. Esta nova Lei do Mirandês serviria como ponto de partida para impulsionar o desenvolvimento dessas áreas e promover o uso e a preservação do Mirandês como uma língua minoritária e culturalmente significativa, possivelmente levando a que a língua mirandesa ganhasse nova vitalidade.

Assim, se o futuro da língua mirandesa depende, em primeiro lugar, dos seus falantes, a sua continuidade está também relacionada com a existência de instituições e meios de transmissão como a escola e outras instituições. Apesar das transformações sociais concorrerem para a situação de precariedade em que se encontra a língua mirandesa, a realidade mostra-nos que esta ainda mantém a sua vitalidade, para a qual tem igualmente contribuído a política cultural da autarquia, nomeadamente no apoio à edição de variadíssimas obras em mirandês.

Jornalista: Lara Torrado

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