Independentemente do desfecho das eleições presidenciais (esse não é, aliás, o assunto do presente artigo de opinião), os dias 17 e 18 de janeiro de 2026 revelaram algo que o poder político em Portugal tem preferido minimizar ao longo de décadas: a extraordinária capacidade de mobilização dos portugueses residentes no estrangeiro. Em diversos pontos do mundo, comunidades inteiras organizaram-se para participar nas eleições presidenciais, enfrentando distâncias significativas, constrangimentos profissionais e longas horas de espera para exercer um direito que continua longe de ser plenamente garantido.
Este envolvimento não foi fruto do acaso nem de uma campanha momentânea. Foi uma afirmação clara de pertença. Um gesto coletivo que desmonta a ideia confortável de que os emigrantes portugueses estão desligados da vida política nacional. Pelo contrário, demonstraram estar atentos, informados e dispostos a participar, mesmo quando o sistema lhes coloca obstáculos evidentes.
A dimensão desta participação levanta uma questão política central: estará o Estado português preparado para reconhecer os seus cidadãos no estrangeiro como parte integrante da democracia, e não como uma realidade periférica? Ou continuará a tratar a diáspora como um recurso simbólico, útil para discursos ocasionais, mas irrelevante quando se discutem direitos concretos?
Neste contexto, o debate sobre o voto eletrónico deixa de ser uma abstração técnica e passa a ser uma escolha política. As soluções tecnológicas que existem e que já são aplicadas noutros países com resultados positivos, poderiam reduzir drasticamente as desigualdades no acesso ao voto. A persistência em adiar essa discussão não pode ser atribuída apenas a cautela administrativa. É legítimo perguntar se não existe, em certos setores, e em particular no seio de alguns partidos, um desconforto profundo com a ideia de uma diáspora eleitoralmente ativa e numericamente relevante.
O receio de alterar equilíbrios políticos tradicionais pode explicar mais do que muitas justificações oficiais. Uma participação reforçada dos portugueses no estrangeiro teria impacto real nos resultados e obrigaria a repensar prioridades, discursos e políticas públicas. Talvez seja precisamente isso que incomoda.
Ainda assim, um dado é inegável: nunca tantos portugueses fora do território nacional participaram num ato eleitoral presidencial. Esse facto representa por si só um sinal inequívoco de maturidade democrática e de ligação persistente ao país de origem, independentemente da distância geográfica.
Portugal não se esgota nas suas fronteiras físicas. A sua realidade económica, social e cultural é indissociável da diáspora. Continuar a ignorar essa evidência é uma escolha política com consequências. A mobilização de janeiro de 2026 foi mais do que um episódio excecional, foi uma demonstração de força cívica.
Resta saber se aqueles que têm o poder de legislar, ou seja, os deputados à Assembleia da República, estão dispostos a encará-la como uma oportunidade de aprofundar a democracia, ou se por outro lado continuarão a encará-la como uma ameaça incómoda.
Artigo escrito por José Martinho, Deputado Municipal em Lausanne, Suíça


















