Neste período de celebração Natalícia, sobretudo para os Cristãos, seria normal estar a aqui a tecer considerações sobre o nascimento do Menino Jesus e de toda a afetividade e moralidade que este acontecimento religioso e histórico envolve e potencia. Porque todos os anos, esta quadra se repete, continuará a haver oportunidades para falar sobre esta data festiva/comemorativa. E, depois, como o Natal é quando o homem quiser, pode acontecer todos os dias, desde que não desvirtue o espírito que, verdadeiramente, o sustenta.
Porém, mesmo não saindo da vulgaridade mediática que tem emergido, nos últimos dias, pelo mundo inteiro, não posso deixar de falar de Nelson Mandela.
Naturalmente que sobre este homem, ou esta figura planetária, já muito foi dito e muito mais se continuará a dizer, sobretudo, agora, que já partiu para o pai. É que, muitas vezes, há pessoas às quais só é reconhecido o mérito do que fizeram ao longo do seu percurso de vida, após a sua morte.
Acredito, com efeito, que, não obstante todas as referências que já foram feitas, em relação a esta invulgar personalidade, que simboliza a bondade e o renascer, muito mais será reconhecido ao longo da história futura.
Mas, independentemente de muitos outros aspetos do seu percurso de vida, o que importa, nesta altura, salientar, são, sobretudo, as suas caraterísticas ao nível dos valores afetivos, sociais, de cidadania, nomeadamente no que toca à forma como percebeu e compreende a atitude do “outro”, em relação a si próprio e à sociedade politica quei primeiro o estigmatizou e, depois, o valorizou.
Tendo em conta o contexto em que desenvolvo a minha atividade profissional, não posso deixar de referenciar a postura como Nelson Mandela, enfrentou, já em liberdade, aqueles que o maltrataram ou mantiveram detido no fulgor da sua vida, durante uma vida.
A sua capacidade para entender os múltiplos condicionalismos que lhe mutilaram, moldaram e condicionaram a capacidade de movimentar fisicamente, mas que não lhe amputaram a mente, bem como de perdoar e reconciliar, é uma notável lição de humanismo e reconciliação social.
Todavia, principalmente neste período de luto “universal”, inspirando-se na sua forma de estar e sentir a vida e o mundo, foi possível assistir a muitos discursos e intervenções de líderes e responsáveis mundiais que, sinceramente, não mais evidenciaram do que uma certa dose hipocrisia, disfarçada de pesar.
Na sua difícil e longa caminhada para a liberdade, Mandela foi, de facto, um herói. Mas não um herói qualquer. Longe disso. Só ele sabe os sacrifícios e as humilhações por que passou, mas às quais generosamente resistiu.
E após chegar a líder do seu país, de forma CLARA e DEMOCRÁTICA, ao contrário do que acontece em muitas sociedades, ditas modernas e politicamente avançadas, não aproveitou o poder para se vingar de ninguém, nem mesmo daqueles que lhe fizeram mal. Como também soube gerir com singular sabedoria a sua liderança, retirando-se, na altura certa, sem apego ao poder ou às mordomias presidenciais.
E se a capacidade de perdoar e se tornar amigo do seu próprio carcereiro é reveladora de uma invulgar capacidade gerir as emoções e as relações intersociais, promover a reconciliação e o bem comum, o desprendimento do poder, aliado à humildade pessoal, deve ser uma fonte inspiradora para todos quantos se arrogam de serem detentores do saber absoluto e se transformam em ditadores convencidos, sem perceberem que um dia podem ser destituídos.
Estando, pois, nesta quadra Natalícia, o meu desejo é que, tal como Mandela, todos nós lutemos contra as situações de desigualdade, injustiça material e humana e promovamos a solidariedade e a fraternidade, sem nunca esquecermos a nossa capacidade de perdoar e amar, arejando, à Luz da Fé, as nossas consciências.
Artigo escrito por Nuno Pires












