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A guerra no Médio Oriente voltou a mostrar uma realidade incontornável: o que acontece nesta região nunca fica apenas na região. A escalada militar e a perturbação do tráfego no Estreito de Ormuz fizeram regressar ao centro do debate global um dos maiores pontos de pressão da economia mundial. Por ali passa cerca de um quarto do comércio marítimo mundial de petróleo e uma fatia muito relevante do gás natural liquefeito, pelo que qualquer bloqueio, ameaça ou interrupção tem impacto imediato nos preços da energia, nos transportes, na inflação e na segurança internacional.
Mas a centralidade do Médio Oriente não se explica apenas pelo presente conflito. Trata-se de uma região onde se acumulam recursos energéticos, capacidade militar, corredores marítimos estratégicos e polos económicos com influência global. A Arábia Saudita continua a destacar-se como uma potência petrolífera central; o Irão combina enormes reservas de petróleo e gás com peso militar e ambição regional; o Iraque permanece entre os países mais relevantes no mapa energético; e o Catar assume um papel decisivo no mercado global de gás natural liquefeito. Só no caso do Estreito de Ormuz, a Agência Internacional de Energia estima que por ali transitem cerca de 20 milhões de barris por dia e a grande maioria das exportações de gás natural liquefeito do Catar.
A isto soma-se a dimensão militar. O Irão mantém um papel central no equilíbrio estratégico regional, incluindo no dossiê nuclear, que continua sob forte acompanhamento internacional. Israel, por seu lado, conserva uma posição singular no tabuleiro do Médio Oriente, tanto pela sua superioridade tecnológica e militar como pelo facto de não ser signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares. A Arábia Saudita permanece também como um dos principais atores regionais em matéria de defesa e projeção de influência.
Ao mesmo tempo, a região não vive só de petróleo, gás e guerra. A Turquia tem enorme peso económico, os Emirados Árabes Unidos afirmaram-se como plataforma financeira e logística global, e o Egito conserva uma relevância demográfica e geopolítica decisiva. É precisamente esta combinação de energia, poder militar, localização estratégica e influência económica que faz do Médio Oriente um verdadeiro epicentro da ordem internacional. E é por isso que, quando a guerra se intensifica e Ormuz vacila, o impacto deixa de ser regional para passar a ser mundial.
André Pinção Lucas e Juliano Ventura
10 de março de 2026



















