Os factos vistos à lupa, Uma parceria com o Instituto +Liberdade (maisliberdade.pt) com o Canal N

Uma das perguntas mais interessantes da noite eleitoral na primeira volta era simples: que partidos “alimentaram” os resultados dos candidatos presidenciais? Ou, dito de outra forma, como é que os eleitores das Legislativas de maio de 2025 distribuíram o seu apoio em janeiro de 2026?

Com base em dados trabalhados por investigador Pedro Magalhães, a partir de uma sondagem à boca da urna do ICS-ISCTE, GfK e Pitagórica, a leitura geral aponta para um padrão claro: os candidatos mais fortes combinaram retenção elevada das suas bases com capacidade seletiva de atração fora do seu “campo natural”.

No caso de António José Seguro, que somou 31,1% dos votos, a marca principal foi a fidelidade do eleitorado: a grande maioria do seu resultado veio diretamente de votantes do PS nas legislativas. Ainda assim, o seu desempenho não se esgota aí: captou também fatias relevantes de quem tinha votado na AD, no Livre e em outros partidos fora das maiores forças partidárias, sugerindo uma capacidade de agregação que vai além da sua casa de origem.

Já André Ventura, com 23,5%, mostrou igualmente uma forte retenção: segurou a esmagadora maioria do eleitorado do Chega, conseguindo ainda recolher algum apoio adicional junto de eleitores da AD e do PS.

Por sua vez, João Cotrim de Figueiredo, com 16,0%, absorveu praticamente todo o eleitorado da Iniciativa Liberal — mas o dado decisivo é outro: atraiu uma parcela muito significativa de votantes da AD em 2025. Em termos líquidos, acabou por receber mais votos vindos da AD do que da IL, captando quase tanto eleitorado social-democrata como Luís Marques Mendes.

E é precisamente na AD que surge o fenómeno mais marcante: a dispersão. Os seus votos repartiram-se sobretudo entre Marques Mendes (o “destinatário natural”, mas com apenas 11,3%), Cotrim de Figueiredo, António José Seguro e Henrique Gouveia e Melo. Este último, com 12,3%, apresentou um perfil mais transversal, captando votos de forma relativamente equilibrada entre antigos eleitores do PS, da AD e de outros partidos.

Nota metodológica: não foram considerados brancos/nulos nem votos de 2025 que não se converteram em apoio a candidatos, sendo os “outros partidos” distribuídos proporcionalmente.

Perante estes padrões de fidelidade e dispersão, quem conseguirá, na segunda volta, transformar transferências de voto em maioria — e com que “coligação” de eleitores?

André Pinção Lucas e Juliano Ventura

3 de fevereiro de 2026

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