Exmo. Senhor Ministro da Educação,
Escrevo-lhe para lhe dar os parabéns. Sim, parabéns. Não pelos resultados dos alunos, nem pelas condições das escolas, nem pela valorização dos professores. Os parabéns são pela extraordinária capacidade de transformar professores em escriturários de luxo.
Hoje saí da escola às 16h. Depois de meia hora ao volante, cheguei finalmente a casa. Pensei, ingenuamente, que o dia de trabalho tinha terminado. Que ilusão a minha!
Abri o computador e começou a segunda jornada: relatórios, mapas de refeições, mapas do leite, ofícios para a Câmara Municipal, ofícios para a Junta de Freguesia, listas de livros para os alunos comprarem, formulários, plataformas, grelhas, tabelas e toda a restante coleção de documentos que parecem nascer espontaneamente nos gabinetes ministeriais.
Quando dei por mim eram 20h. O jantar continuava por fazer. A solução foi uma sandes comida à pressa entre um relatório e um email. Afinal, o trabalho acumulava-se e a noite prometia continuar ocupada com mais burocracia.
E atenção: isto não acontece num dia excecional. É a regra. São dias e dias seguidos. Vivemos no maravilhoso país dos papéis, documentos que, muitas vezes, não servem para melhorar a aprendizagem de uma única criança, mas servem certamente para encher arquivos, estatísticas e plataformas informáticas.
Com tanta papelada, sobra pouco tempo para aquilo que realmente importa. Não há tempo para brincar com os filhos quando são pequenos. Não há tempo para conversar à mesa. Não há tempo para um passeio em família. E quando ambos os pais são professores, a situação torna-se ainda mais caricata: dois adultos sentados ao computador, noite dentro, atolados em documentos que parecem nunca ter fim.
Quem nos devolve os momentos perdidos? Quem nos paga as brincadeiras que não existiram? Os cafés com amigos que ficaram por tomar? As conversas adiadas? As horas roubadas ao descanso?
E no meio disto tudo ainda é preciso preparar o dia seguinte. Planificar aulas, corrigir trabalhos, organizar materiais e pensar nos alunos.
Senhor Ministro, deixem-nos dar aulas!
Contratem assistentes administrativos para fazer o trabalho administrativo. Deixem os professores fazer aquilo para que estudaram, aquilo que sabem fazer e aquilo que verdadeiramente faz diferença na vida dos alunos.
Enquanto muitas profissões desligam o computador ao fim do dia e regressam a casa para descansar, os professores chegam, calçam as pantufas e começam outro turno. Um turno invisível, não pago e raramente reconhecido.
Não queremos privilégios. Queremos apenas tempo para ensinar. Tempo para os nossos alunos. Tempo para as nossas famílias. Tempo para viver.
Porque eu sou professora.
E foi para ensinar que estudei.
Não foi para passar a vida a preencher papéis.
Com os melhores cumprimentos,
Uma professora cansada de burocracia e com saudades de dar apenas aulas.
Artigo escrito por Alzira Lages, professora















