A Igreja Católica em Portugal voltou a colocar a sinodalidade no centro da sua reflexão pastoral com a realização, este sábado, do II Encontro Sinodal Nacional, promovido pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). O encontro reuniu cerca de 160 participantes de todas as dioceses do país, entre bispos, presbíteros, religiosos e leigos, com o objetivo de identificar propostas pastorais concretas para aprofundar e consolidar o caminho sinodal em território nacional.
Ao longo dos trabalhos, foi reiterada a ideia de que a sinodalidade não se esgota em estruturas ou processos, mas exige uma profunda conversão de mentalidades. “A questão essencial já não é quem manda na Igreja, mas que tipo de serviço é pedido a cada pessoa, segundo o dom que recebeu”, sublinharam os participantes no documento conclusivo preliminar.
Na sessão de abertura, o presidente da CEP, D. José Ornelas, afirmou que o atual pontificado representa uma “afirmação clara da continuidade” do caminho sinodal, considerando-o hoje “ainda mais urgente” perante o contexto internacional. O responsável destacou que a intensificação de conflitos armados, crises humanitárias e desigualdades globais interpela diretamente a Igreja a aprofundar a sua natureza sinodal, tanto na vida interna como na missão junto do mundo. “Vivemos tempos que colocam em risco a sobrevivência das populações mais vulneráveis, exigindo uma resposta eclesial mais próxima, corresponsável e profética”, afirmou.
Seguiu-se a intervenção de D. Virgílio Antunes, vice-presidente da CEP, que apelou à passagem da reflexão à prática, defendendo que a sinodalidade deve ser assumida de forma concreta no quotidiano das comunidades cristãs.
Durante a manhã, os representantes das dioceses partilharam os passos já dados na implementação do Documento Final do Sínodo. Entre os avanços identificados destacaram-se a valorização dos Conselhos Pastorais, a reorganização da pastoral em redes ou unidades sinodais, o investimento na formação do clero e dos leigos, o reforço dos ministérios laicais e a promoção de práticas regulares de escuta e discernimento comunitário.
Foram também reconhecidas dificuldades persistentes, como resistências de matriz clerical, fragilidades nos processos de decisão partilhada, défices formativos, cansaço pastoral e limitações estruturais. Ainda assim, os participantes apontaram vários sinais de esperança, entre os quais o crescimento da corresponsabilidade, o entusiasmo de comunidades que já vivem práticas sinodais, o compromisso assumido pelos bispos, o surgimento de novos ministérios laicais e a aproximação de pessoas anteriormente afastadas da vida eclesial.
No período da tarde, os trabalhos decorreram em 20 grupos sinodais, seguindo o método da conversação no Espírito, a partir da pergunta orientadora: “Que Igreja somos chamados a ser a partir da conversão no Espírito?”. Das reflexões emergiu, de forma transversal, a centralidade da escuta, com a proposta de criação de tempos e espaços próprios de escuta espiritual, humana e comunitária, integrados na vida das paróquias, dioceses e contextos sociais e profissionais.
O documento preliminar aponta ainda para a necessidade de uma conversão profunda do olhar e da linguagem eclesial, abandonando lógicas de poder em favor de uma visão evangélica centrada no serviço. Os participantes defenderam uma Igreja de acolhimento e misericórdia, de portas abertas, sem condições prévias para quem procura Jesus, bem como uma Igreja participativa, onde todos os batizados são chamados a integrar os processos de discernimento, decisão e ação pastoral.
Foi igualmente sublinhada a importância de uma Igreja centrada em Cristo, orante e missionária, que privilegia o “ser” antes do “fazer”, investe na formação contínua a partir do Evangelho e assume uma presença profética junto das situações de sofrimento, injustiça e exclusão. A comunicação em rede e o protagonismo dos jovens como agentes ativos da missão evangelizadora surgiram também como prioridades.
“O que as partilhas revelam é uma transição cultural em curso, lenta, mas real, onde a sinodalidade se afirma como caminho, método e horizonte”, conclui o documento, apontando para a abertura de novos espaços de comunhão, participação e missão na Igreja em Portugal.
A Diocese de Vila Real marcou presença no encontro com o bispo diocesano, D. António Augusto Azevedo, acompanhado por seis leigos, membros da Equipa Sinodal e do Conselho Diocesano de Pastoral. A participação refletiu o percurso já realizado pela diocese no âmbito do processo sinodal.
Após a receção do documento final do Sínodo, a Diocese promoveu uma Assembleia Sinodal que reuniu o Conselho de Presbíteros e o Conselho Diocesano de Pastoral, num momento de comunhão, escuta e discernimento. Deste trabalho resultaram linhas orientadoras para o caminho pastoral diocesano, posteriormente reafirmadas nos órgãos consultivos e agora em fase de aprofundamento e concretização.
O reforço da equipa sinodal, com a integração de novas pessoas e competências, permitiu maior proximidade às comunidades e um acompanhamento mais consistente do processo. A Diocese encontra-se atualmente na etapa dos Encontros Sinodais Arciprestais, que visam aprofundar o discernimento a nível local e traduzir o caminho sinodal em opções pastorais concretas.
Apesar das dificuldades, nomeadamente ao nível da formação e de alguma desconfiança por parte de setores do clero e dos leigos, a Diocese de Vila Real destaca o acompanhamento próximo do seu bispo como um sinal positivo e encorajador. “É um caminho contínuo de escuta, corresponsabilidade e missão, confiado à ação do Espírito Santo, que nos chama a construir juntos uma Igreja mais próxima, participativa e missionária”, sublinha a diocese.
A Redação,
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