Estamos em pleno inverno. Tempo frio propício à matança do porco e, consequentemente, à confeção dos mais variados petiscos derivados da carne suína. As carnes ficam mais rijas e mais fáceis de conservar.
De origem rural, a partir do momento em que tomei consciência da minha existência, permanecem na minha memória inúmeras recordações agradáveis das matanças, ou como é comum dizer-se, do “mata-porco”.
Uma tradição quase em vias de extinção, a matança constituía, até há uns anos atrás, um dos acontecimentos anuais mais importantes no seio de uma família, nomeadamente do meio agrícola. Dos derivados do porco eram quase tudo era e é aproveitado, constituindo importante base de sustento gastronómico.
A partir do início do mês de Dezembro até pouco depois do Ano Novo, decorriam, em força, as tradicionais matanças dos porcos. Tudo dependia das necessidades alimentares de cada núcleo familiar, do tempo de engorda dos suínos, do apetite que estes revelavam, ou mesmo da quantidade de comida que os proprietários teriam disponível para os alimentar.
Revestidas de grande simbologia, as matanças eram como que rituais para os quais, habitualmente, se convidavam os familiares, vizinhos, ou amigos mais chegados.
Recordo com saudade esses dias! Quando criança, nem era preciso acordar-me para levantar cedo, na manhã destinada ao “Mata-porco”, quer fosse em casa dos meus pais, da minha avó, das minhas tias, ou mesmo de um ou outro vizinho, ou amigo afetivamente mais próximo.
Uma forte lareira e os potes grandes ao lume eram indicadores da festança, cenário que se repetiria, mais tarde, no dia da feitura das alheiras.
Logo de manhã, preparava-se o mata-bicho, com prioridade para os homens que haviam de sacrificar o animal, que tanto se estimara e engordara. As crianças num animado alvoroço festivo não paravam um minuto e assistiam expectantes ao sacrifico fatal do suíno. O matador, munido sempre de uma grande faca, devia ter sensibilidade para sangrar bem o animal, sem lhe prolongar o sofrimento em demasia.
Tudo era realizado com tempos e rituais próprios. Desde a preparação, até ao pendurar o porco, tarefas mais destinadas ao género masculino, terminando com algumas das mulheres a lavar as tripas e outras a preparar o lauto almoço.
Mas, o que mais me sensibilizava era o ambiente afetivo que se vivenciava, a interação que existia, as histórias que se contavam e as brincadeiras que aconteciam.
Hoje em dia, esses contextos e ambientes quase desapareceram, fruto da evolução social e das leis que nos protegem ao nível sanitário, mas que acabaram por penalizar no domínio dos afetos e das tradições seculares ao nível das relações sociais.
E se minha filha conserva, ainda, algumas boas recordações do mata-porco em casa dos avós, ou tios, dificilmente o mesmo vai acontecer no que toca à minha neta.
A envolvência afetiva e social inerente ao “mata-porco”está, com efeito, a morrer, deixando de ser uma referência positiva. O que, de algum modo, se poderá lamentar.
Até mesmo a imagem e o relacionamento com porcos, sofreu significativa alteração, deixando de ser um animal doméstico de estimação e curral, para ser de pocilga industrial, sem que ninguém manifeste semblantes de tristeza na hora do sacríficio fatal.
Nuno Pires
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