No Dia Internacional do Burro, 8 de maio, falou-se do animal. Eu falo dos homens.
Nasci no Nordeste Transmontano. Cresci ao lado da ribeira, entre hortas, olhos, lameiros e caminhos de terra, onde o burro era rei, tal como em muitos outros territórios transmontanos. Puxava o carro, a charrua, o arado, carregava lenha para o inverno, água da fonte, o avô doente para a vila Era motor, companhia, família. Chamavam-lhe teimoso. Eu chamava-lhe prudente. Um burro não dá um passo sem medir o chão. Não avança para o precipício. Quem dera a muita gente ter o mesmo juízo.
Veio a chamada “revolução mecânica”. O trator entrou de rompante, o burro saiu em silêncio. Mesmo com subsídios da Europa e projetos da AEPGA, o Burro de Miranda definha. É raça autóctone, única, inteligente, dócil. Está classificada como em vias de extinção. Deixamos morrer o único burro 100% português enquanto gastamos milhões a importar “modernidade” que não chega aqui.
O New York Times já lhe dedicou páginas. Uns viram um animal protegido, símbolo de uma ruralidade perdida. Outros leram nas entrelinhas um duplo sentido. E leram bem.
Porque, neste recanto de Portugal, convivemos com o burro há séculos. Conhecemos-lhe o valor, a força, a dignidade. Também sabemos ler quando nos querem fazer de burros.
E tantas tentam fazer. Todos os dias.
Promessas democráticas ficaram presas na A1. Os investimentos também. Aqui, assistimos impávidos à desertificação programada. Fecham escolas porque “não há crianças”. Fecham centros de saúde porque “não há utentes”. Cortam linhas de comboio porque “não dá lucro”. Cortam futuro porque não dá votos. Os números do INE envergonham: o PIB per capita de Terras de Trás-os-Montes é metade do de Lisboa. Somos dos mais pobres da Europa rica.
Contra factos não há argumentos. Só há abandono.
Os que teimam em sobreviver no Nordeste não são uma “espécie” em extinção. Porém, somos portugueses com Bilhete de Identidade igual ao de quem mora na Avenida da Liberdade. A Constituição não prevê cidadãos de primeira e de segunda. O país é que pratica.
Continuamos incrédulos perante este abismo socialmente discriminatório. Mas burros, não. Recusamos o papel.
“Burros” serão os que cultivam a nossa interioridade como se fosse destino natural. Os que assinam despachos em gabinetes com ar condicionado e nos condenam ao isolamento. Os que falam em coesão territorial nos congressos e depois adiam, cortam ou votam contra obras como o IP2 completo, hospitais de proximidade ou regadio. A esses, sim, deveria aplicar-se o nome. E deveria aplicar-se a responsabilização política.
Ao Burro Mirandês devemos respeito, proteção e um plano de salvação a sério.
Ao nordestino devem respeito, investimento e o direito a não emigrar para viver.
Feliz Dia Internacional do Burro. Aos de quatro patas que nos ensinaram a prudência. E, “a outros”, que recusamos baixar a cabeça.
Nuno Pires
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