Trás-os-Montes e Alto Douro movem o país. É facto, não retórica. Das barragens de Miranda, Picote e Bemposta no Douro Internacional, ao Alto Lindoso, Baixo Sabor e Foz Tua, esta região concentra mais de metade da potência hídrica nacional. Acrescentem-se os parques eólicos do Marão, Alvão, Nogueira e Bornes, onde o vento rende kilowatt após kilowatt. É luz para Lisboa e Porto. É força para a indústria exportadora. É estabilidade para a rede europeia. É soberania energética que nasce entre fragas, rios e serras.
Mas há uma fratura que o país insiste em ignorar. O interior transmontano entrega tudo isto e recebe de volta despovoamento, estradas adiadas e serviços que fecham. E paga, todos os meses, a mesma fatura de eletricidade de quem vive num clima temperado à beira-mar.
Aqui as amplitudes térmicas são brutais. Invernos de vários meses abaixo de zero obrigam a aquecer a casa dia e noite. Verões de 40 graus exigem arrefecimento para trabalhar e dormir. O resultado é uma fatura energética desproporcional sobre famílias, idosos e pequenos negócios que já lutam para se manter de pé. É o transmontano a suportar o custo climático sem usufruir do benefício económico da energia que produz.
Por isso, reivindica-se um ato elementar de justiça: discriminação positiva na fatura da eletricidade para os residentes e empresas de Trás-os-Montes e Alto Douro. Não é esmola nem favor. É compensação. É reconhecer que este território dá água, vento, paisagem e segurança energética ao país inteiro, enquanto arca sozinho com um sobrecusto que deriva da sua geografia.
Uma tarifa reduzida para o interior produtor não é despesa pública. É investimento estratégico. Alivia encargos e fixa pessoas. Reduz custos de operação e atrai serviços. Devolve rendimento a quem mantém vivas as aldeias, as serras e as infraestruturas que iluminam Portugal. É demografia, é coesão, é economia.
Contudo, falta voz. Falta acutilância de quem representa a região em Lisboa. Assiste-se a um silêncio cúmplice ou a intervenções mornas quando se discute o Orçamento, o Plano de Recuperação, a fiscalidade ou a energia. Os eleitos pelo distrito raramente impõem a agenda do interior com a firmeza que o contributo energético da região exige. Negocia-se pouco, exige-se menos, aceita-se quase tudo. E o resultado está à vista: o Douro dá a energia, o litoral dita as regras, e o transmontano paga a conta duas vezes.
É tempo de mudar o tom. O peso hidrelétrico e eólico de Trás-os-Montes e Alto Douro tem de se traduzir em peso político. Em exigência de contrapartidas. Em medidas concretas que corrijam assimetrias. A justiça tarifária é a primeira delas. Porque um país que se diz coeso não pode continuar a tratar o seu motor energético como periferia esquecida.
O Douro não para. O vento não para. A produção não para. A paciência do interior também tem limite. É hora de Lisboa ouvir. É hora de pagar a dívida energética ao território que nunca falhou ao país.
Nuno Pires
07/05/2026














