Passou um ano desde o dia em que a luz faltou e, com ela, caiu também a sensação de controlo. O 28 de abril de 2025 ficou gravado como mais do que uma falha elétrica. Foi um ensaio geral involuntário para o que acontece quando tudo o que tomamos por garantido deixa de funcionar ao mesmo tempo.
Na altura, falou-se em caos, em colapso temporário, em falha europeia em cadeia. Hoje, passado um ano do ruído imediato, sobra uma pergunta menos confortável: O que é que realmente aprendemos? A resposta, para muitos, parece caber numa palavra perigosa: pouco.
Porque um apagão não é apenas a ausência de eletricidade. É a suspensão abrupta da rotina moderna. É o silêncio dos telemóveis, a paragem dos transportes, a fragilidade dos hospitais dependentes de sistemas digitais, o comércio reduzido ao dinheiro físico que já quase ninguém carrega. É o regresso forçado a uma versão analógica de um país que já não sabe funcionar sem energia constante.
O mais inquietante, um ano depois, não é a memória do evento, mas a forma como ela se esbateu rapidamente no quotidiano. Como se a normalidade tivesse capacidade de apagar o próprio aviso.
É certo que episódios de falhas elétricas não são novidade. Portugal já conheceu interrupções relevantes em 2000 e 2021, cada uma com as suas causas e especificidades. Mas o apagão de 2025 teve uma dimensão diferente: Não apenas pela extensão geográfica, mas pela velocidade com que expôs dependências críticas e pela facilidade com que se espalhou a desinformação, num vazio informativo tão rápido quanto o próprio corte de energia.
Durante algumas horas, o país viveu entre versões contraditórias: Ataque informático, acidente europeu, fenómeno raro, falha estrutural em linhas de alta tensão. A verdade técnica, como quase sempre nestes casos, revelou-se mais complexa e menos cinematográfica. Mas isso pouco importou no momento. O que se viveu foi sobretudo um colapso da confiança imediata.

Um ano depois, o que deveria ter ficado não é apenas a lembrança do evento, mas a consciência da sua possibilidade. Porque a questão nunca foi se poderia acontecer, foi sempre quando voltaria a acontecer.
E aqui entra a parte mais desconfortável desta reflexão: A nossa relação com o risco é profundamente seletiva. Enquanto a energia regressou e os sistemas retomaram o funcionamento, regressou também a tendência para arquivar o episódio como exceção estatística. Um incidente. Um “caso isolado”. Um dia mau. Um tema na agenda do dia. Um “lembraste-te do Apagão?”.
Mas sistemas complexos não falham apenas uma vez por acaso. Falham porque acumulam fragilidades invisíveis até ao momento em que todas coincidem.
O apagão de 2025 deixou também outra marca menos discutida: A rapidez com que a sociedade se reorganizou no improviso. Geradores esgotados, supermercados sem stocks, rádios recuperando um papel quase esquecido, hospitais a operar em modo de contingência. Houve, nesse caos, uma eficiência paradoxal: A de quem só funciona bem quando é obrigado a isso.
Talvez seja essa a verdadeira lição do episódio. A ilusão de estabilidade. Vivemos dentro de sistemas altamente sofisticados, mas também altamente interdependentes. E quanto mais eficiente é essa rede, menos margem existe para falhar sem consequências em cascata.
Um ano depois, o apagão já não está nas manchetes. Mas devia estar, pelo menos como incómodo persistente. Não para alimentar medo, mas para contrariar a amnésia típica das sociedades tecnologicamente dependentes.
Porque o problema nunca foi a luz ter ido abaixo. O problema é a facilidade com que nos habituamos novamente a não pensar que isso pode voltar a acontecer.
Artigo escrito pela Jornalista Vitória Botelho
Recorde o artigo escrito no dia do Apagão Ibérico: https://www.canaln.tv/o-apagao-iberico-estara-o-pais-preparado-para-situacoes-de-emergencia/














