A paz connosco mesmos não é uma calmaria superficial, nem o silêncio forçado de quem finge leveza para parecer iluminado. É um ato de coragem brutal, do tipo que não se exibe nas redes nem se compra com frases bonitas.
É olhar para dentro sem desviar o olhar do que vamos encontrar: as falhas que escondemos de nós próprios, as escolhas erradas que tentamos justificar, as dores mal cicatrizadas que ainda puxam por nós nos dias mais silenciosos. E decidir, mesmo depois de ver tudo isso de perto, não nos odiar por sermos imperfeitos.
A verdadeira paz não vive do que mostramos ao mundo, mas do que deixamos de precisar provar a alguém. Ela nasce quando paramos de correr corridas que não nos levam a lado nenhum e percebemos que nem sempre ser aceites é o preço da liberdade. Muitas vezes, aquilo a que chamamos “aceitação dos outros” é apenas uma prisão disfarçada de aprovação, um lugar onde trocamos a nossa verdade por um lugar à mesa.
A paz surge no instante exato em que a nossa consciência passa a valer mais do que qualquer aplauso social. Mas não te enganes: ela não é leve como muitos descrevem. Pode ser desconfortável, porque exige cortes e renúncias.
Estar em paz connosco significa cortar vínculos que nos adoecem, abandonar lugares onde não há reciprocidade, suportar o silêncio de quem não compreende as nossas escolhas. É escolher a solidão digna em vez da companhia que nos dilacera por dentro. Dói na hora da decisão, deixa um vazio, mas é nesse vazio que começa a liberdade.
Quem encontra essa paz não precisa levantar bandeiras nem gritar para ser ouvido. A maior força está em não nos perdermos para agradar, em não vendermos a nossa essência por um punhado de atenção barata. É uma postura desconcertante num mundo que vive refém da validação alheia e mede valor pelo número de olhares que consegue atrair.
No fim, estar em paz é aceitar que a vida não será perfeita, que nós não seremos perfeitos, e que mesmo assim temos o direito de respirar leve. É reconhecer que não há nada mais revolucionário do que permanecermos inteiros, olhando para a frente e de frente, de olhar firme e sem soluços, num mundo que insiste em ficar com os nossos pedaços e nos devolver apenas fragmentos, procurando amputar a nossa essência, a nossa alegria e até a nossa paciência, sem perceber a nossa determinação e capacidade de resiliência.

Nuno Pires
27/05/2026

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