Os factos vistos à lupa- Uma parceria com o Instituto +Liberdade (maisliberdade.pt)

Manuel e Pedro são pai e filho. O Pedro seguiu as pisadas do pai: tem uma função semelhante, qualificações comparáveis e está enquadrado na mesma categoria profissional: quadro superior.

Esta categoria abrange trabalhadores com elevada qualificação técnica, como engenheiros, médicos, juristas, economistas e outros profissionais especializados. O Pedro estudou, investiu na sua formação e fez aquilo que tantas vezes é apresentado como o caminho natural para uma vida melhor.

À primeira vista, parece ter resultado. Em 2024, Pedro tem uma remuneração base superior à que o pai recebia em 2003. Mas essa comparação esconde o essencial: o que conta não é apenas quanto se ganha em termos nominais, mas quanto sobra depois dos descontos e que poder de compra esse rendimento permite.

Depois de descontar quase 800 euros por mês em IRS e Segurança Social — a que acresce ainda a contribuição patronal de 23,75% paga pelo empregador — o Pedro recebe 1.737 euros líquidos.

Manuel, em 2003, recebia 1.334 euros líquidos. Parece menos, masatualizado para preços de 2024, ajustando à inflação, esse valor equivaleria hoje a 2.004 euros. Ou seja, apesar de ter seguido um percurso qualificado semelhante ao do pai, o Pedro tem hoje menos 268 euros por mês de poder de compra. Menos 13% de salário líquido real.

O mesmo fenómeno verifica-se noutros níveis de qualificação. Entre quadros médios, a diferença também é negativa para a geração mais nova: para percursos profissionais comparáveis, há uma perda de poder de compra de 8% face a 2003.

Manuel e Pedro são nomes fictícios e histórias prováveis, mas não reais. Os valores, esses, são reais: refletem a evolução do salário líquido real em Portugal entre 2003 e 2024 para quadros superiores e quadros médios.

É esta realidade que ajuda a explicar por que tantos jovens portugueses qualificados ponderam sair do país, ou já o fizeram. Muitos não emigram por falta de ligação a Portugal, mas porque encontram lá fora economias mais dinâmicas, melhores salários e melhores perspetivas de carreira e de poupança.

Mas isto não tem de ser um fado nem uma inevitabilidade. Portugal pode e deve ambicionar oferecer melhores condições aos seus jovens. Um país que investe na formação das novas gerações não pode resignar-se a vê-las viver pior do que os seus pais, ou a vê-las partir para conseguir aquilo que aqui continua a ser demasiado difícil alcançar.

André Pinção Lucas e Juliano Ventura

2 de junho de 2026

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