Antigo padre exorcista foi condenado por crimes de violação, burla qualificada e usurpação de funções. À saída do tribunal, negou todas as acusações, afirmou que não conhece a mulher que o denunciou e admitiu a possibilidade de recorrer da decisão.
Humberto Gama, antigo padre católico conhecido pelas práticas de exorcismo, foi condenado esta terça-feira, no Tribunal de Vila Real, a cinco anos e seis meses de prisão, por crimes de violação, burla qualificada e usurpação de funções. À saída do tribunal, o arguido contestou veementemente a decisão, negou ter cometido qualquer crime e deixou em aberto a possibilidade de recorrer da sentença.
“Confundiram tudo”, afirmou aos jornalistas, à saída do edifício judicial, sublinhando que não concorda com o desfecho do julgamento nem com os factos que, na sua perspetiva, ficaram demonstrados em tribunal.
Uma das declarações mais contundentes de Humberto Gama incidiu sobre a acusação de violação. O antigo padre garantiu que não conhece a mulher que o denunciou, no âmbito de um processo relacionado com uma alegada sessão de exorcismo em Murça.
“Como é que um homem em 15 minutos podia violar alguém que eu nem conheço? Eu não a conheço”, declarou, rejeitando a acusação que esteve na origem da investigação criminal.
O agora condenado negou igualmente ter burlado alguém, insistindo que nunca solicitou dinheiro a terceiros. “Nunca pedi um tostão a ninguém”, afirmou, acrescentando que não concorda “minimamente com nada de tudo o que foi ali dito”.
Questionado sobre a condenação e a possibilidade de vir a cumprir pena de prisão, Humberto Gama mostrou-se aparentemente tranquilo. “Não me custa nada ir para a prisão. Já lá estive”, declarou, reiterando, mais adiante, a mesma posição: “Vou para a prisão, qual é o problema?”.
À saída do tribunal, fez ainda questão de contestar a forma como é identificado publicamente, estabelecendo uma distinção entre as designações de padre e sacerdote. “Estão a tratar-me por padre. Eu não sou padre, eu sou sacerdote. Se a Igreja Católica acabar, os padres acabam, mas os sacerdotes não”, afirmou.
Apesar da condenação, Humberto Gama não confirmou de forma definitiva a apresentação de recurso, mas deixou essa possibilidade em aberto, manifestando discordância com a decisão do coletivo de juízes.
PROCESSO COMEÇOU COM UMA DETENÇÃO EM 2021
O julgamento teve início a 12 de maio e decorreu à porta fechada, por determinação do coletivo de juízes, atendendo à natureza dos crimes em apreciação. O arguido, atualmente com 82 anos, respondia, segundo a acusação, por um crime de violação agravada, um crime de coação sexual, um crime de burla qualificada e um crime de usurpação de funções na forma continuada.
O processo remonta a dezembro de 2021, quando Humberto Gama foi detido pela Polícia Judiciária, na sequência de uma investigação desencadeada por uma denúncia de violação durante uma alegada sessão de exorcismo, em Murça.
Após o primeiro interrogatório judicial, ficou em prisão preventiva, medida que viria a ser revogada em abril de 2022. Desde então, aguardou o julgamento em liberdade.
De acordo com a acusação do Ministério Público, Humberto Gama terá desenvolvido, ao longo de décadas, uma atividade ligada a práticas de exorcismo e aconselhamento espiritual, apesar de ter sido excomungado pela Igreja Católica em 1979. O Ministério Público sustentou que a influência exercida sobre seguidores terá sido utilizada para cometer os crimes pelos quais foi julgado.
A condenação agora conhecida representa um novo capítulo num processo que gerou atenção pública em Vila Real e na região transmontana, pela gravidade das acusações e pela natureza da atividade atribuída ao arguido.
À saída do tribunal, Humberto Gama manteve a contestação integral dos factos que lhe foram imputados. A eventual apresentação de recurso poderá prolongar a discussão judicial do caso, ficando por conhecer se o condenado avançará efetivamente com essa iniciativa.
Jornalista: Paulo Silva Reis
Foto: DR























