O concelho de Miranda do Douro vai acolher, nos dias 22 e 23 de maio, a primeira Bienal do Teatro Popular Mirandês (TPM), uma iniciativa que pretende preservar, valorizar e projetar uma das mais autênticas manifestações culturais da Terra de Miranda.

A iniciativa, promovida pela Associação Tradifols, Artes e Ritmos (fundada em 2024) decorrerá em vários pontos do concelho brigantino e reunirá grupos de teatro, investigadores, artistas e comunidade local em torno de um património profundamente ligado à memória coletiva e à identidade mirandesa.
O regrador e estudioso do TPM, António García, sublinhou que esta bienal nasce da necessidade de manter viva uma tradição secular que resistiu ao tempo graças à forte ligação das populações às suas raízes culturais.
“O Teatro Popular Mirandês ultrapassa a dimensão do simples entretenimento, afirmando-se como um espaço de expressão cultural, transmissão de saberes e resistência identitária”, afirmou.
Historicamente associado a contextos rurais, festividades religiosas, romarias e momentos de convívio comunitário, o TPM constitui uma expressão artística singular do Planalto Mirandês, marcada pela oralidade, pela participação popular e pela adaptação contínua dos textos às realidades locais.
A programação da primeira edição inclui a apresentação do auto “A Confissão do Marujo”, recolhido na aldeia da Póvoa, em Miranda do Douro, bem como a estreia de “A Tia Lucrécia”, pelo Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra (GEFAC), parceiro da organização.
Para António García, a Bienal assume-se como muito mais do que um simples evento cultural.
“É um encontro, uma celebração e um espaço de criação que pretende unir diferentes gerações e agentes culturais, funcionando também como motor de desenvolvimento social, cultural e económico do Planalto Mirandês”, destacou.
Também envolvido no projeto, o linguista, escritor e investigador António Bárbolo Alves defende que o Teatro Popular Mirandês resulta de um complexo processo de cruzamento cultural, impossível de explicar a partir de uma única origem.
“O que hoje designamos como Teatro Popular Mirandês é fruto de várias correntes culturais que se fundiram no isolamento geográfico do Planalto Mirandês”, explicou.
Segundo o académico, os textos revelam influências diretas da escola vicentina e de dramaturgos peninsulares dos séculos XVI e XVII, como Baltasar Dias, Afonso Álvares, António Pires Gonge ou António Cândido de Vasconcelos, além de autores castelhanos cujas obras circulavam livremente nas feiras e romarias da região fronteiriça.
No entanto, António Bárbolo Alves sublinha que foram os chamados “regradores” locais os verdadeiros responsáveis pela preservação e reinvenção desta tradição.
“Eram encenadores, copistas e guardiões da memória coletiva. Não se limitavam a reproduzir os textos: adaptavam as falas, transformavam as palavras e aproximavam as histórias da realidade concreta das aldeias”, referiu.
A riqueza linguística do TPM é outro dos elementos destacados pelo investigador, que aponta a coexistência do português e do castelhano profundamente marcados pela oralidade mirandesa.
“Trata-se de um registo precioso sobre a forma como as comunidades locais se apropriaram de textos vindos de fora e os transformaram em património seu”, concluiu.

A Redação com Lusa
Foto: DR

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