Portugal despede-se de um dos seus maiores escritores. O médico e romancista António Lobo Antunes morreu esta quinta-feira, aos 83 anos, deixando uma obra monumental que atravessou fronteiras, idiomas e gerações.
Com 32 romances publicados e vários livros de crónicas, Lobo Antunes foi um dos autores portugueses mais traduzidos no mundo e presença recorrente nas listas de candidatos ao Prémio Nobel da Literatura, distinção que nunca recebeu, mas cuja ausência jamais diminuiu a dimensão da sua grandeza literária.
A sua morte representa uma perda irreparável para a cultura portuguesa. A sua obra, essa, permanece intacta, inquieta, viva.
Psiquiatra de formação, marcado pela experiência da Guerra Colonial em Angola, Lobo Antunes transformou a literatura num território de dissecação íntima e coletiva. Os seus livros são viagens densas pela memória, pela culpa, pela identidade e pelas feridas abertas da história portuguesa.
A sua escrita, fragmentada, musical, exigente, recusou concessões. Não escrevia para facilitar; escrevia para revelar. Cada romance era um mergulho profundo na alma humana, um confronto com as sombras do país e do indivíduo.
Traduzido em dezenas de línguas, estudado nas universidades, aclamado pela crítica internacional, tornou-se uma referência incontornável da literatura contemporânea.
TRÁS-OS-MONTES LÊ LOBO ANTUNES
Em Trás-os-Montes e Alto Douro, as Bibliotecas Municipais espalhadas pelo território guardam nas suas estantes vários títulos do autor. Das cidades aos concelhos mais pequenos, é possível encontrar romances que marcaram gerações de leitores e continuam a desafiar novos públicos.
Num tempo de luto, talvez a mais justa homenagem seja simples e silenciosa: abrir um dos seus livros.
Ler Lobo Antunes é entrar num labirinto de vozes e sair transformado. É reconhecer o país nas suas contradições. É confrontar a dor e a beleza na mesma frase. É aceitar que a literatura pode ser exigente e, ainda assim, absolutamente necessária.
António Lobo Antunes partiu, mas a sua obra permanece como uma das mais poderosas construções literárias da língua portuguesa. A sua escrita continuará a ser descoberta, debatida, amada e contestada.
Os prémios são efémeros. Os livros não.
E enquanto houver leitores, nas bibliotecas de Trás-os-Montes, nas escolas, nas universidades, nas casas onde a literatura encontra refúgio, a voz de António Lobo Antunes continuará a ecoar.
Porque há escritores que passam.
E há escritores que ficam.
A Redação,
Fotos: DR


















