A tempestade Kristin (e outras se avizinham) não foi apenas um fenómeno meteorológico, foi um teste coletivo ao caráter das nossas comunidades. Em poucas horas, telhados voaram, árvores tombaram, aldeias ficaram às escuras e centenas de famílias viram a sua vida virar do avesso. Mas, no meio do caos, revelou-se algo precioso: uma extraordinária onda de solidariedade popular.
Vimo-la nas mãos calejadas de vizinhos a limpar estradas improvisadas com as próprias ferramentas, nos bombeiros que trabalham até à exaustão, nos voluntários que percorrem quilómetros para levar água, comida e cobertores a quem ficou isolado, nas associações locais que abrem portas sem perguntar de onde vem quem precisa de ajuda. Vimo-la também nas redes sociais, transformadas em verdadeiras centrais de apoio mútuo, não de indignação estéril, mas de ação concreta.
Esta mobilização espontânea honra o melhor do nosso país. Mostra que quando a natureza nos bate forte não respondemos com resignação, respondemos com entreajuda. Essa energia cívica é o cimento invisível que mantém vivas as comunidades e que nenhum temporal consegue arrancar.
Mas seria ingénuo, e até desonesto, ignorar o reverso da medalha.
Ao mesmo tempo que muitos dão tudo o que podem, há quem veja na tragédia uma oportunidade de lucro fácil. Geradores vendidos ao dobro ou ao triplo do preço, materiais de primeira necessidade inflacionados sem pudor, fornecedores a explorar o desespero de famílias que precisam de luz, calor e segurança. Este aproveitamento comercial não é apenas antiético, é um ataque direto à dignidade de quem já está fragilizado.
Igualmente revoltante é a ação dos chamados “amigos do alheio”. Enquanto comércios permanem fechados e casas danificadas ficam temporariamente desprotegidas, alguns optam por saquear em vez de ajudar. Roubar quem já perdeu tanto não é apenas crime, é uma falha moral que nos envergonha a todos.
Importa dizê-lo com clareza: estas atitudes não representam o nosso país. São exceções mesquinhas num mar de generosidade. Mas, justamente por isso, devem ser denunciadas e combatidas pela lei e pela consciência coletiva.
O legado da Kristin não será apenas de destruição. Se soubermos aprender com ele, poderá ser também o momento em que reafirmámos quem queremos ser: uma comunidade solidária, vigilante, justa e unida.
Que a reconstrução das casas venha acompanhada da reconstrução e fortalecimento do nosso sentido de responsabilidade comum. Porque, no fim do dia, é isso que nenhuma tempestade pode levar.
Artigo escrito por José Martinho, Deputado Municipal em Lausanne, Suíça
















