Por vezes fico à janela do mundo, preocupado,
a perguntar para onde nos leva este jeito de ser e de estar.
Parece que o céu desta sociedade só tem dois sóis a brilhar com força desmedida.
De um lado, os profissionais da política, que fizeram da vida a arte de prometer o mundo.
Do outro, os arautos da bola, os boleiros, deuses de chuteiras douradas que nos vendem o êxtase de noventa minutos.
Eles ocupam o palco, o microfone, a luz.
O resto do mundo, esse imenso e silencioso continente, fica na plateia, na sombra.
Falo daquele que estuda até a vista cansar, que trabalha afincadamente com as mãos calejadas ou com a mente em ebulição.
Daquele que alimenta, todos os dias, com pão e sacrifício, a educação que nos ergue, a formação que nos molda e a ciência que nos salva.
Esse povo que constrói pontes, que cura feridas, que ensina crianças a ler o futuro… parece que não produz com eficiência aos olhos desta grande feira mediática.
Basta abrir os olhos e os ouvidos.
Basta estar atento ao grande teatro das notícias, à agenda bem penteada dos meios de comunicação social.
Os ponteiros do relógio da antena giram sempre para os mesmos.
Minutos e minutos, horas e horas, desproporcionadas, recorrentes, normalizadas, para as aparições políticas que se repetem como um refrão e para os lances da bola que nos fazem esquecer quem somos.
Não é contra a política, que é necessária como o ar. Não é contra a bola, que é festa e paixão.
É contra o desequilíbrio da balança.
É contra o silêncio ensurdecedor que se faz sobre quem realmente sustenta o edifício do amanhã.
Até quando vamos aplaudir apenas os dois sóis e esquecer as estrelas que, humildes, mantêm a noite acesa?
Nuno Pires
15/09/2026
















