Embora integrado na interacção social e na dinâmica das organizações associativas e não só, costuma dizer-se, e com alguma razão, que o futebol é um “mundo à parte”.
À primeira vista, dado tratar-se de um fenómeno tão popular, quanto universalmente transversal, fica, na verdade, a ideia de que o futebol é actividade simples, sustentada em propósitos e objectivos educativos e de valorização da pessoa humana, aos mais diversos níveis.
Na sua génese e no seu espírito, é mesmo assim. Se nalguns casos não o é, deveria ser..
Só que, a coberto de todas as suas virtudes formais, muita coisa dúbia acontece nos meandros da bola, não só com pouca clareza de princípios, como até de uma negação completa do seu espírito.
Se, por um lado, a atenções dos adeptos, ou da maior parte deles, está direccionada para o espectáculo que é proporcionado nos relvados dos estádios, e é ali, naquele espaço, ou no ecrã televisivo que fixamos a nossa objectiva visual, por outro, não será menos verdade que andará por aí muita gente que se “alimenta da bola”, mas que o interesse genuíno pelo fenómeno ou pela própria modalidade, lá no seu íntimo, é diminuto e pouco claro.
Mesmo não falando do “artistas” que, muitas vezes, “sem saberem ler nem escrever”, nem contribuírem com os seus conhecimentos para o progresso da humanidade, se safam como podem e como os deixam, para fazerem fortunas materiais, as quais para quase todos de outra forma activa e séria, seriam inatingíveis, há, no mundo da bola, gente que sobreviva, vegetando, sem que o seu contributo palpável seja dotado de um interesse minimamente interessante ou decisivo para o progresso e desenvolvimento da modalidade.
Obviamente que não estou a incluir neste espectro sanguessugante, todos aqueles que estão na bola e no desporto em geral de boa fé e com uma postura de genuidade puramente voluntariosa, pretendendo apenas a promoção do bem-estar comunitário e da dinâmica desportiva e social. E, desses, felizmente, há muitos. Graças a Deus!…
Porém, como diz o povo, não há regra sem excepção. Mas quando a excepção acontece, deveria acontecer sustentada numa atitude e numa filosofia positivista e pedagógica.
Só que, não é bem assim. Uma boa parte das vezes, longe disso. E pronto. Completamente divergente.
Com efeito, adoptando, normalmente, uma camuflagem camaliónica e um oportunismo perspicaz, é sabido que proliferam por aí aqueles a quem eu poderia apelidar de sanguessugas da bola.
Estes, normalmente com um olhar discretamente atento e uma postura mansa, sem darem muito nas vistas, mas não deixando de, sem ética, tentar difundir ideias que os favoreçam, ao mesmo que desenvolvem, até ao extremo, exercícios acrobáticos cervicais, pouco comuns, tanto ao nível físico como de atitude mental, vão minando o sistema até encontrarem numa “toca” que os protege e de onde passam recolher dividendos difíceis de conseguir numa clarividência de procedimentos.
Por outro lado, há a gente que se “governa” no mundo da bola, como se de uma actividade de voluntariado se tratasse, mas que dessa filosofia nada partilham.
Louvo e admiro todos aqueles que dão o seu esforço, dedicam o seu tempo e, tantas vezes recursos económicos, em detrimento do próprio convívio familiar, em prol do dirigismo desportivo e até ao novel da formação. Mas não posso pactuar nem, muito menos, louvar aqueles que vivem à sombra das actividades da bola, sem para elas nunca terem dado um passo de “borla”.
Com esse tipo de “sanguessugas da bola” o desporto não vai lado nenhum. Por isso, deveriam jogar noutro lado, se para isso tivesse capacidade, engenho e arte.
Artigo escrito por Nuno Pires
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