Durante décadas, a menopausa foi tratada como um assunto menor, quase embaraçoso, reduzido a “afrontamentos” e alterações de humor. No entanto, esta etapa da vida afeta metade da população mundial e tem implicações profundas na saúde física, mental e social das mulheres. Está na altura de deixarmos os estereótipos para trás e falarmos da menopausa com o rigor científico e a empatia que merece.
A menopausa define-se como o fim permanente da menstruação, confirmado após 12 meses consecutivos sem período menstrual. Em Portugal, ocorre geralmente entre os 45 e os 55 anos, sendo a idade média cerca dos 51. É precedida pela perimenopausa, um período de transição hormonal que pode prolongar-se por vários anos e durante o qual surgem sintomas de intensidade variável. Os mais conhecidos são os afrontamentos e os suores noturnos, mas a lista é muito mais extensa: perturbações do sono, fadiga, dores articulares, alterações da memória e da concentração, secura vaginal, diminuição da libido, ansiedade e depressão. Estudos indicam que cerca de 75% das mulheres apresentam sintomas vasomotores e que, em aproximadamente um terço dos casos, estes são moderados a graves, interferindo significativamente com a qualidade de vida.
Estas manifestações têm uma base fisiológica clara: a diminuição progressiva dos estrogénios, hormonas que desempenham um papel central em múltiplos sistemas do organismo. Para além dos sintomas imediatos, esta quebra hormonal está associada a um aumento do risco de osteoporose, doenças cardiovasculares e alterações metabólicas. Importa lembrar que, após a menopausa, as doenças cardiovasculares tornam-se a principal causa de morte nas mulheres, um dado frequentemente ignorado.
Apesar de toda a informação atualmente disponível, muitas mulheres continuam a atravessar esta fase praticamente sozinhas, sem esclarecimento adequado ou acompanhamento médico estruturado. Parte do problema reside na persistência de mitos: que “é só uma fase”, que “é normal”, que “todas passam por isso”, ou que os sintomas são inevitáveis e devem ser suportados em silêncio. Nada disto é verdade.
Hoje sabemos que existem várias estratégias eficazes para lidar com a menopausa. A abordagem deve ser individualizada e sustentada em aconselhamento médico adequado. A vigilância clínica regular permite avaliar sintomas, fatores de risco e comorbilidades, bem como orientar decisões terapêuticas informadas. A terapêutica hormonal de substituição (THS) continua a ser o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores e apresenta benefícios adicionais na saúde óssea, quando prescrita de forma apropriada. A evidência atual indica que, mulheres saudáveis com menos de 60 anos ou dentro dos primeiros 10 anos após a menopausa, os benefícios da THS superam os riscos na maioria dos casos.
Para quem não pode ou não deseja recorrer à THS, existem alternativas não hormonais, bem como intervenções no estilo de vida cientificamente comprovadas, tais como: exercício físico regular, alimentação equilibrada, sono adequado e gestão do stress. O apoio psicológico pode ser fundamental, sobretudo quando existem sintomas de ansiedade ou depressão.
A menopausa é também uma questão social e cultural. Muitas mulheres encontram-se nesta fase no auge da sua vida profissional, ao mesmo tempo que cuidam de filhos e de pais envelhecidos. Ignorar esta realidade é desvalorizar uma geração inteira de mulheres experientes, ativas e essenciais à sociedade. Esta transição não diminui as mulheres, apenas marca uma nova etapa, que pode ser vivida com qualidade, plenitude e bem-estar, desde que exista informação, apoio e acesso a cuidados adequados.
A menopausa não deve ser um tabu nem um fardo silencioso. Deve ser encarada como o que é: uma etapa fisiológica da vida feminina com repercussões clínicas reais. Reconhecê-la, informar adequadamente e garantir acesso a cuidados baseados na evidência são passos essenciais para promover a saúde e qualidade de vida nesta fase.
Artigo escrito por: Maria Luís Domingues, enfermeira ULSTMAD e membro da Associação de Profissionais de Saúde do Alto Tâmega (APSAT)
















