A questão da afetividade, da identidade e dos valores é complexa. Através dos tempos, não só nas definições, mas na real vivência.
Sobretudo nos tempos que correm, assistimos a uma inversão de valores. E a uma evidente negligência na relação com os outros, as instituições, os deveres e as obrigações. Até nas afirmações de cidadania.
Na vida e na sociedade existem várias maneiras de gostarmos de nós próprios, dos outros e das instituições com que nos identificamos. Em nós existe a possibilidade de construirmos pontes, colaborarmos, manifestarmos os nossos gostos e a nossa afetividade.
Na indústria do futebol contemporâneo nota-se e fala-se, essencialmente, dos triunfos de uns e da derrota de outros. Do desempenho das arbitragens quando é polémico. Das transferências, das contratações. E não tanto no genuíno “amor à camisola”, ou ao clube.
A paixão pelo futebol e o encanto que esta atividade coloca nos amantes da modalidade pura surge, muitas vezes, desvirtuada da sua essência. Daquilo que deveria ser real e saudável. Uma postura cada vez mais preciosa.
Vem isto a propósito de um incondicional Brigantino. Fervoroso adepto do G.D. Bragança. Que, com muita curiosidade e admiração, me habituei a ver no Estádio Municipal de Bragança. Por ocasião de cada encontro. E também no percurso de ida e volta para o centro da cidade.
Não obstante o entusiasmo atual, há uns anos atrás, ir ao futebol ao Domingo à tarde fazia parte das vivências de boa parte dos brigantinos. A Praça da Sé era ponto de referência, de convergência e de encontro. Partir daquele local histórico, principalmente em grupo, era assim que boa parte dos adeptos do G.D. Bragança se deslocava para o Estádio Municipal.
Não faltavam as bandeiras, os cachecóis e outros adereços alusivos. Mas imperava, sobretudo, a alegria e o entusiasmo de ir apoiar e ver o clube da terra jogar. Os percursos para o campo até pareciam uma romaria. Havia fulgor, interesse e motivação social para ajudar a coletividade futebolística mais importante do Nordeste Transmontano.
Infelizmente, hoje em dia, sem se terem definido bem as causas, tudo parece ter mudado um pouco.Tudo parece algo diferente. Não que o clube não tenha a simpatia da nossa gente.
Bom, mas quem não mudou a sua forma de estar e ser em relação ao “seu G.D. Bragança” foi o adepto Fernando. Também conhecido por Xanana. Que acaba por ser uma figura típica do futebol brigantino.
Com efeito, sempre que há “bola” na cidade, é vê-lo ir para o Estádio Municipal, a tempo e horas, a pé, faça chuva ou faça sol. Quem o vir, concluirá que vai sozinho, no seu “diálogo introspectivo”. Mas não. Habitualmente faz-se acompanhar de uma grande bandeira do G.D.B. e do seu inseparável rádio, a pilhas. Que “cola” ao ouvido para, atentamente, ouvir um relato. Ou acompanhar o desenvolvimento do marcador em diversos campos em simultâneo, enquanto fixa o olhar na movimentação dos jogadores no relvado nordestino.
Simples, educado, com um ar cândido e manifestação da pureza na sua dedicação ao clube, o Fernando Xanana é, sem dúvida, uma figura popular do desporto da nossa cidade. Ainda faz lembrar o tempo em que o G.D. Bragança inspirava motivação e fazia mover multidões e vontades nesta comunidade.
Um dia, no estádio, prometi-lhe que iria colocar a sua foto no jornal. Sorriu de contente, como quem diz: no jornal vai ver-me muita gente.
Pois, caro Fernando Xanana, aqui fica a sua foto. Mas também a minha homenagem a esta personagem brigantina. Que, mesmo não sendo erudita ou inserida na literatura das “Figuras de Bragança”, pela sua dedicação à causa desportiva na capital do nordeste e pelo simbolismo que encerra, bem merece este meu reconhecimento. E, certamente, de muitos outros adeptos do futebol nordestino.

Nuno Pires [email protected]

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