Nos últimos anos, apareceram no mercado alguns medicamentos que não tendo sido inicialmente desenhados para o tratamento da obesidade, têm sido usados para tal. São exemplo disso o Ozempic® e o Mounjaro®.
Durante décadas, falar de obesidade significou, demasiadas vezes, falar de falta de disciplina, excesso alimentar e/ou sedentarismo. Hoje sabemos que esta visão é demasiado simplista. A obesidade é reconhecida como uma doença crónica e recidivante, resultante da interação complexa entre fatores biológicos, comportamentais, ambientais, sociais e económicos. Em 2022, cerca de 1 em cada 8 pessoas no mundo vivia com obesidade, refletindo a dimensão de um problema que deixou há muito de ser apenas individual para se tornar uma importante questão de saúde pública.
Os agonistas dos recetores do GLP-1, como a semaglutida (Ozempic®), a liraglutida, (Saxenda®) e os novos agonistas duais GIP/GLP-1, como a tirzepatida,(Mounjaro®) (fármacos administrados por caneta injetora), vieram demonstrar que é possível obter perdas ponderais muito superiores às habitualmente alcançadas apenas com intervenções convencionais em muitos doentes. Esta realidade trouxe uma esperança legítima a milhões de pessoas, no entanto, é necessário manter cautelas face à eficácia destes supostos “fármacos milagrosos”.
A obesidade não resulta simplesmente de uma ausência de vontade individual. Da mesma forma, não pode ser resolvida exclusivamente através de uma prescrição farmacológica. A intervenção deve ser individualizada, considerando o contexto clínico, as comorbilidades, os objetivos do doente, os riscos, os benefícios e a capacidade de manter o tratamento.
Sobre os novos medicamentos
O GLP-1 é uma hormona produzida pelo organismo que participa na regulação da glicemia e do apetite. Os seus agonistas mimetizam alguns destes efeitos, aumentando a saciedade, reduzindo a ingestão alimentar e contribuindo para o controlo metabólico.
A evidência acumulada é suficientemente robusta para que estes medicamentos deixem de poder ser considerados uma simples moda passageira. Em dezembro de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou a sua primeira orientação específica sobre terapêuticas GLP-1 na obesidade, reconhecendo a sua eficácia e admitindo a sua utilização a longo prazo em adultos com obesidade, mas sublinhando simultaneamente a necessidade de uma abordagem integrada e de intervenção comportamental. As recomendações são condicionais, entre outras razões, devido à existência de incertezas sobre efeitos a muito longo prazo, custos, acesso e capacidade dos sistemas de saúde.
Portanto, os medicamentos funcionam, mas isso não significa que sejam milagrosos, sendo necessário desmistificar algumas ideias.
O primeiro mito é pensar que uma injeção substitui uma mudança de estilo de vida.
As recomendações clínicas atuais colocam explicitamente a farmacoterapia ao lado, e não em vez, da alimentação, atividade física e intervenção comportamental. Os estudos de referência recomendam que os medicamentos para controlo ponderal sejam utilizados conjuntamente com dieta hipocalórica e aumento da atividade física, enquadrados numa estratégia mais ampla de controlo do peso.
O segundo mito é pensar que a obesidade fica “curada” quando o peso diminui.
A resposta à interrupção do tratamento demonstra a complexidade da doença.
Alguns artigos descrevem que após a interrupção do fármaco em estudo, ao longo do ano seguinte, os participantes recuperaram aproximadamente dois terços do peso que tinham perdido durante o tratamento.
Estes resultados evidenciam a natureza crónica da obesidade e a necessidade de pensar a manutenção do peso como parte integrante do tratamento.
O terceiro mito é considerar que mais perda de peso significa melhor resultado.
O objetivo do tratamento da obesidade não deve ser apenas atingir um determinado número na balança. Deve incluir a redução do risco cardiovascular, a melhoria da capacidade funcional, da qualidade de vida e das doenças associadas, bem como a manutenção de resultados que sejam sustentáveis. Uma redução ponderal acompanhada de perda significativa de massa muscular, défices nutricionais ou deterioração da qualidade de vida não representa o resultado terapêutico pretendido.
Finalmente, existe um quarto mito particularmente perigoso: considerar estes medicamentos inofensivos porque são populares.
O uso destes fármacos está associado a efeitos adversos gastrointestinais, como náuseas, vómitos, diarreia e obstipação, entre outros. Convém sublinhar que estes medicamentos devem ser sempre prescritos e acompanhados por profissionais de saúde, até porque se regista o problema crescente de produtos falsificados ou de qualidade inadequada associado à enorme procura mundial.
A OMS enquadra atualmente estas terapêuticas como parte de uma estratégia de cuidados de longo prazo, integrada com intervenções comportamentais, alimentação saudável, atividade física e acompanhamento por profissionais de saúde especializados.
Seria um erro apresentar os novos fármacos como uma ameaça à saúde pública apenas porque estão associados a uma enorme popularidade. A evidência científica demonstra benefícios clínicos relevantes em pessoas selecionadas com excesso ponderal ou obesidade.
Três pilares para uma perda de peso saudável
Os três pilares fundamentais na preda de peso saudável, são: alimentação, atividade física e comportamento.
O primeiro é a alimentação. Perder peso implica, de forma sustentada, reduzir a ingestão energética relativamente ao gasto, mas uma estratégia nutricional não pode resumir-se à contagem de calorias. A qualidade da alimentação, a adequação nutricional, a preservação da massa muscular e a capacidade de manter o plano alimentar a longo prazo são igualmente importantes. Uma dieta extremamente restritiva pode produzir resultados rápidos, mas dificilmente constitui uma solução sustentável se não puder ser integrada na vida quotidiana.
O segundo pilar é a atividade física. O exercício não deve ser encarado apenas como uma ferramenta para “queimar calorias”. A atividade física regular contribui para a saúde cardiovascular e metabólica, para a capacidade funcional e para a preservação da massa muscular. Durante uma perda ponderal significativa, esta última questão assume particular importância. O objetivo não deve ser simplesmente pesar menos, mas preservar o máximo possível de tecido muscular e melhorar a saúde global.
O terceiro pilar, frequentemente subestimado, é o comportamento. A relação com a comida, o sono, o stress, os padrões alimentares, o ambiente familiar e profissional e a capacidade de estabelecer e manter novas rotinas condicionam fortemente a manutenção da perda ponderal. As recomendações atuais valorizam intervenções comportamentais estruturadas, incluindo definição de objetivos e estratégias para ultrapassar barreiras. Para tal é imprescindível uma monitorização com acompanhamento profissional multidisciplinar.
Mais do que perder peso, ganhar saúde
Estamos provavelmente perante uma mudança de paradigma no tratamento da obesidade. Pela primeira vez, dispomos de terapêuticas farmacológicas capazes de produzir perdas ponderais de magnitude anteriormente difícil de alcançar apenas com medidas convencionais.
Mas uma revolução terapêutica não deve ser confundida com uma revolução cultural baseada na procura incessante do corpo ideal.
O objetivo da medicina não deve ser simplesmente fazer as pessoas pesar menos. Deve ser tratar uma doença, reduzir complicações, melhorar a funcionalidade e a qualidade de vida e ajudar cada pessoa a alcançar resultados que possa manter.
Porque, no tratamento da obesidade, a principal finalidadenão está em perder peso rapidamente. Está em conseguir transformar a perda de peso numa oportunidade para amelhoria duradoura da saúde.
Pedro Eliseu Vicente Frutuoso Fernandes, Médico Interno De Medicina Interna, Colaborador da Associação de Profissionais de Saúde do Alto Tâmega e Barroso (APSAT)

















