Todos os anos, milhares de professores aguardam com ansiedade a publicação das colocações. Para muitos, não se trata apenas de uma questão profissional. Trata-se de saber se poderão continuar a acompanhar os filhos, cuidar dos pais idosos, manter a estabilidade familiar e suportar os custos de uma vida que se tornou cada vez mais cara.
Este ano, como em tantos outros, repetem-se situações difíceis de compreender. Professores residentes em Carrazeda de Ansiães são colocados em Alijó, enquanto docentes de Alijó são colocados em Carrazeda de Ansiães. Ambos ficariam mais próximos de casa se fosse possível uma simples permuta. Contudo, o sistema continua rígido, ignorando muitas vezes a lógica, o bom senso e, sobretudo, as pessoas.
Perante situações como esta, muitos docentes questionam-se: por que motivo os concursos não são organizados por concelhos ou por áreas geográficas mais restritas? Não resolveria todos os problemas,mas, certamente, contribuiria para uma maior proximidade entre as escolas e os profissionais que nelas trabalham. Um sistema que permitisse valorizar a ligação ao território poderia reduzir deslocações desnecessárias, diminuir custos para os professores, melhorar a sua qualidade de vida e fazer uma melhor gestão dos dinheiros públicos.
A profissão docente é frequentemente apresentada como uma missão. E assim é, de facto. Mas também é uma profissão exercida por seres humanos, com famílias, responsabilidades e limitações. Obrigar docentes a percorrer dezenas de quilómetros diariamente, quando existem vagas em concelhos vizinhos ou mesmo no seu local de residência, gera revolta, desgaste físico e emocional. Oscombustíveis não param de aumentar, as despesas de alimentação acumulam-se e o salário, muitas vezes, mal acompanha a subida do custo de vida, já para não falar nas rendas altíssimas a pagar quando o docente tem de permanecer no local onde trabalha, o que torna insuportável a sua vida que se pretende seja digna.
Acresce a crescente sensação de injustiça relativamente aos concursos. Muitos professores com décadas de serviço e elevada graduação profissional, sentem que o seu esforço e dedicação não são devidamente reconhecidos. Apesar da experiência acumulada e dos anos dedicados à escola pública, continuam a ser colocados longe das suas residências logo nas primeiras fases do concurso. Entretanto, ao longo do ano, surgem novas vagas que acabam por ser ocupadas por candidatos menos graduados, alimentando dúvidas e desconfianças relativamente ao funcionamento do sistema.
É também frequente ouvir docentes questionarem a gestão de determinadas vagas. Existe a perceção de que algumas necessidades das escolas não são disponibilizadas de imediato nos concursos nacionais, surgindo apenas mais tarde através de mecanismos de contratação. Quando isso acontece, instala-se naturalmente a suspeita de que nem todas as oportunidades são divulgadas com a mesma transparência nem no mesmo momento. Esta falta de confiança prejudica a credibilidade de todo o processo e reforça o sentimento de injustiça entre os profissionais.
O concurso nacional, que deveria ser um instrumento de equidade e transparência, é muitas vezes percecionado pelos professores como um mecanismo distante da realidade das escolas e das pessoas. Quando se verificam colocações aparentemente contraditórias, em que docentes trocam involuntariamente de concelho apesar de existirem necessidades nos seus locais de residência, torna-se difícil explicar que o sistema está verdadeiramente a servir os interesses da educação.
O resultado está à vista de todos: um corpo docente cada vez mais cansado, desmotivado e desencantado. A falta de valorização profissional, aliada à instabilidade constante, tem consequências graves. Multiplicam-se os relatos de exaustão, ansiedade e problemas de saúde. Muitos professores sentem-se empurrados para situações limite, consequência de anos sucessivos de incerteza e de decisões administrativas que parecem ignorar a dimensão humana da profissão.
Entretanto, fala-se muito da falta de professores nas escolas, mas raramente se fala das razões que levam tantos profissionais a perder a motivação. Não basta discutir números. É necessário ouvir quem está diariamente nas salas de aula. É preciso compreender que a qualidade da educação depende também das condições de trabalho dos docentes.
Acresce a esta realidade a necessidade frequente de muitos professores recorrerem a atestados médicos, consequência de um conjunto de fatores que afetam o seu bem-estar físico e psicológico. Muitos profissionais são colocados a centenas de quilómetros das suas residências e, perante salários que nem sempre permitem suportar os elevados custos de deslocação, alojamento e alimentação, vivem sob uma pressão constante. A situação torna-se ainda mais preocupante quando se considera o envelhecimento do corpo docente. Muitos professores, já na faixa dos 50 anos ou mais, continuam a realizar diariamente deslocações longas e exigentes, apesar de enfrentarem problemas de saúde associados à idade e ao desgaste acumulado de décadas de serviço. Ignorar estas condições é ignorar uma das principais causas do absentismo, da desmotivação e da crescente dificuldade em atrair e reter profissionais na carreira docente.
A escola pública é um dos pilares da sociedade portuguesa. No entanto, esse pilar não pode assentar sobre profissionais constantemente sacrificados, deslocados e ignorados. É urgente repensar o modelo de colocação de professores, criar mecanismos de mobilidade e permutas mais flexíveis, garantir total transparência na disponibilização de vagas e devolver aos docentes a dignidade e o respeito que merecem. Uma educação de qualidade começa por valorizar aqueles que dedicam a sua vida a ensinar. Nenhum sistema educativo será verdadeiramente justo enquanto continuar a obrigar os seus professores a escolher entre a profissão que amam e a família que os espera em casa.
Prof. Alzira Lages
Docente e cidadã preocupada com o futuro da escola pública portuguesa















