A Constituição da República Portuguesa passa a contar, pela primeira vez, com uma versão integral em língua mirandesa, numa iniciativa da Associaçon de Lhéngua i Cultura Mirandesa (ALCM) que reforça a valorização da diversidade linguística em Portugal.
O trabalho de tradução, que demorou mais de seis meses a ser concluído, surge num momento simbólico: a celebração dos 50 anos da Constituição e os 25 anos da própria associação. Para Alcides Meirinhos, responsável pelo projeto, esta iniciativa representa um passo importante para afirmar o mirandês no panorama legislativo nacional.
“Mais do que um exercício jurídico, esta tradução é um gesto cultural profundo”, sublinha a ALCM, destacando que a língua mirandesa, expressão viva de uma comunidade e de uma identidade própria, ganha assim maior visibilidade e reconhecimento no contexto nacional.
A versão agora apresentada exigiu não só rigor linguístico, mas também validação jurídica. Para esse efeito, foi fundamental o contributo da jurista Maria da Glória Lourenço, falante nativa de mirandês, que assegurou a precisão dos termos legais e a coerência entre os dois sistemas linguísticos.
Segundo os responsáveis, esta tradução aproxima os cidadãos da sua Lei fundamental, reforçando o sentimento de pertença e promovendo o mirandês como uma língua plenamente capaz de expressar conteúdos jurídicos e institucionais.
A iniciativa vem somar-se a outros marcos importantes na afirmação do mirandês, já reconhecido oficialmente desde 1999 como a segunda língua de Portugal. Obras como “Mensagem”, de Fernando Pessoa, “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões, ou ainda títulos contemporâneos de José Luís Peixoto e Valter Hugo Mãe já contam também com versões em mirandês, tal como clássicos da banda desenhada como Astérix e Tintin.
Além disso, documentos de referência internacional, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, disponível através da UNESCO, já foram igualmente traduzidos para esta língua.
A nova versão da Constituição aguarda agora a sua apresentação oficial ao público, numa data ainda por anunciar, sendo encarada como mais um passo decisivo na preservação e promoção do património linguístico nacional.
Com esta iniciativa, a ALCM reafirma o compromisso de proteger e dignificar o mirandês, garantindo a sua transmissão às gerações futuras e consolidando o seu lugar na identidade cultural portuguesa.
A Redação com Lusa
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