Artigo de opinião escrito por Patrícia Freitas – estudante de História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Dai ao povo o que é do povo 

pois o mar não tem patrões. 

– Não havia estado novo 

nos poemas de Camões!” 

Foi assim que Ary dos Santos descreveu Abril. Ousado nas palavras, soube cantar e elevar o sentimento revolucionário através da sua poesia de intervenção. Falar da revolução de Abril não é tarefa fácil, ainda que todos nós sintamos o impulso de o fazer, sobretudo quando a data se aproxima. Recorrer à poesia é sempre uma boa opção. 

Falar sobre o 25 de Abril é fazer um exercício de desconstrução do processo histórico que nos trouxe até ao regime político que conhecemos hoje: a democracia. Mas, sendo já a democracia um lugar-comum do nosso quotidiano, o que representa para nós, herdeiros das lutas dos que a tornaram possível? Estaremos genuinamente gratos aos que foram presos, torturados, condenados ao exílio, mortos, para que hoje alguns possam arrastar vergonhosamente o projeto democrático pelo chão? Eis outro exercício de pensamento individual que todos devemos fazer. A reflexão sobre estas questões é indissociável de pensar a revolução de Abril como um momento de viragem, talvez o mais importante da história contemporânea portuguesa. 

Não deixa de ser curiosa a coabitação temporal da revolução dos cravos no contexto internacional; a revolução de Abril foi contemporânea da Unidad Popular Chilena, do Programa Comum da esquerda francesa, da crise de Watergate e da derrota americana no Vietname. Uma revolução claramente integrada nos movimentos progressistas que se seguiram a Maio de 68. Assumindo a máxima responsabilidade no processo revolucionário, o MFA foi um agente fundamental para a mudança de regime. Por sua vez, os partidos políticos (desde a esquerda radical de tendência maoísta ao PPD), os sindicatos e outras instituições tradicionais como a Igreja, influenciaram o processo político que se viria a desenvolver. Estes núcleos de poder existiam durante a revolução, ainda que com uma distribuição espacial bem controversa: a profunda oposição entre o norte e o sul do país e as respetivas posições em relação à revolução. A sul do Tejo, o desgaste evidente da tradição do latifúndio foi um incentivo à união dos trabalhadores camponeses em prol da luta pela posse da terra: “a terra é de quem a trabalha” era uma frase que se ouvia regularmente em manifestações nas cidades de Évora e Beja. Em março de 1975, assiste-se à nacionalização de alguns grupos económicos e à ocupação de terras. No norte, o panorama é outro. A resistência à revolução é maior, nomeadamente a das elites mais conservadoras e da Igreja. A direita opõe-se claramente ao processo revolucionário, como se virá a provar, definitivamente, com os acontecimentos do 25 de novembro. 

Ainda que houvesse estas divergências estruturais que, aliás, ainda hoje se revelam caricaturais dos projetos políticos mais recentes, a transição democrática (alguns historiadores têm reservas quanto à utilização deste termo, preferindo falar de ruptura) foi possível através do derrube das elites políticas de um regime autoritário que já não tinha condições para continuar. O sistema ditatorial colapsado deu lugar a uma nova organização económica, com mudanças fundamentais na estrutura da propriedade. A nova cultura ideológica, baseada nos princípios do antifascismo, do antiautoritarismo, da plena liberdade individual e coletiva, assumiu a sua posição hegemónica no seio de uma sociedade cada vez mais reivindicativa dos valores socialistas. As lutas anticoloniais assumiram um papel de relevo durante todo este processo. A guerra levada a cabo pelo Estado Novo não só enfraqueceu a economia e a moral nacionais, como também arrastou os territórios colonizados para uma situação de instabilidade política e social que ainda hoje se fazem sentir. 

A espinha dorsal deste regime autoritário foi, de facto, a sua capacidade repressiva. Para muitos de nós, o conhecimento da censura é apenas o resultado das memórias de quem foi vítima dela. Sentimo-nos comovidos e rapidamente agradecemos pela tolerância que, entretanto, nos entrou pela casa dentro. Não fomos obrigados a esconder a nossa orientação política, não fomos expulsos do nosso país porque pensávamos de maneira diferente. No entanto, hoje, somos capazes de normalizar grupos pouco democráticos, o seu discurso, as suas incoerências. O perigo é evidente e as eleições francesas são, a título de exemplo, uma demonstração dessa ingratidão. Nós, por cá, temos o dever de não regularizar o pensamento autoritário nem mais uma vez. E é por isso que Abril tem que ser todos os dias da nossa vida.

IMG_9798
Alheiras Angelina
banner canal n
Banner Elisabete Fiseoterapia
Dizeres Populares BIG MAC VAI NUM AI Mirandela Braganca 730x90px
Dizeres Populares TASTY ARREGUILAR OS OLHOS Mirandela Braganca 730x90px
Design sem nome (5)
Dizeres Populares BATATAS TAO ESTALADICAS Mirandela Braganca 730x90px
Artigo anteriorFEIRA DO FOLAR DE CARRAZEDA DE ANSIÃES DECORRE NO PRÓXIMO FIM DE SEMANA
Próximo artigoABERTOS PRIMEIROS QUILÓMETROS DA ECOPISTA DO TUA EM MACEDO DE CAVALEIROS