A vida é e está difícil. Mais difícil para uns do que para outros. Para muita gente, por fatores que não controlam, doença, desemprego, solidão, está mesmo muito mal. E seria leviano ignorá-lo.
Mas, mesmo quando aperta, a vida não pode nem deve ser reduzida a uma lista interminável de tarefas: trabalhar, resolver problemas, pagar contas, muitas vezes a prestações, recomeçar no dia seguinte.
Há um outro lado que temos de defender. Aquele momento em que nos permitimos esquecer o tempo. Viver como se não houvesse amanhã, nem outro instante idêntico. Omitir o relógio, o seu tique-taque ansioso, e simplesmente estar, com o discernimento tranquilo de quem sabe que está onde deve estar.
Isso aprende-se. Ou reaprende-se.
Aprende-se quando procuramos fluentemente sorrir e saudavelmente rir, não por obrigação, mas por necessidade. Aprende-se quando encontramos os amigos, mas os amigos mesmo a sério. Aqueles que já nos viram nos melhores e nos piores dias, que conhecem os nossos defeitos e virtudes e, ainda assim, gostam de nós. Que cultivam a reciprocidade sem contabilidade.
É preciso brincar mais. Alegremente, sem vergonha. Fazer algo de que gostamos, que nos console o coração e nos alivie a alma. Pode ser um passeio até à Frieira, uma merenda partilhada, um livro, uma conversa à lareira. Não importa o quê. Importa que nos devolva a nós.
Porque nem todos os momentos da nossa vida precisam de ter um propósito produtivo. Vivemos obcecados com a utilidade de tudo. E, tantas vezes, é precisamente o inútil, o riso solto, a conversa sem pressa, o olhar para o pôr-do-sol, que nos salva. Esses momentos felizes são bálsamo. São remédio sem receita, mas com efeito comprovado: dão-nos vida, com vida.
Só nós podemos viver a nossa vida. Ninguém a vive por nós. E só quando a sentimos profundamente é que ela ganha espessura, sentido.
Em suma, nunca deixemos de dar vida à nossa vida. Fortificando o amor por nós e em nós, com entusiasmo e com tranquilidade. Com a alegria possível, mas com alegria.
É isso que fica. O resto são contas que se pagam.
Nuno Pires
















