Há gestos tão quotidianos que quase deixámos de os ver.
Um pedaço de pão que fica na mesa. O que sobrou do jantar e que prometemos aproveitar amanhã. Um alimento que comprámos a mais e que acaba por não chegar ao prato.
Pequenas coisas. Pequenos desperdícios.
Até percebermos que, multiplicados por milhões de casas, restaurantes, supermercados, indústrias e dias, deixam de ser pequenos.
Hoje, 29 de setembro, assinala-se o Dia Internacional de Consciencialização sobre Perdas e Desperdício Alimentar. Poderíamos voltar aos números. Contar toneladas. Traduzir desperdício em euros. Calcular água, energia, solo e emissões.
Os números são importantes. Mas nem sempre conseguem contar toda a história.
Depois de mais de três anos a coordenar o projeto europeu WASTELESS, ficou comigo uma convicção: não podemos mudar aquilo que não conhecemos e dificilmente podemos reduzir aquilo que não somos capazes de medir.
Porque o desperdício alimentar não começa no caixote do lixo.
Começa muito antes. Pode começar num campo, num alimento que nunca chega a ser colhido. Pode continuar na transformação, no transporte ou na distribuição. Pode esconder-se numa prateleira de supermercado, numa cozinha de restaurante e terminar nas nossas casas, naquele gesto quase automático de deitar fora aquilo a que, por alguma razão, deixámos de reconhecer valor.
Entre o campo e o prato há um caminho longo. E, nesse caminho, há demasiadas oportunidades para perder.
Foi esta complexidade que procurámos compreender no WASTELESS, um projeto europeu que reuniu, durante 41 meses, 29 parceiros de 14 países. Diferentes geografias, culturas e realidades a olhar para o mesmo problema e a tentar responder a uma pergunta essencial: como podemos reduzir o desperdício se não sabemos, com rigor, quanto, onde e por que razão estamos a desperdiçar?
Foi também assim que medir ganhou outro significado.
Medir não é apenas produzir um número. É tornar visível aquilo que antes não víamos. É perceber onde se perde e porquê. É transformar a sensação de que “desperdiçamos demasiado” em conhecimento capaz de sustentar uma decisão.
Medir é compreender. E compreender é o primeiro passo para mudar.
Mas talvez a maior aprendizagem destes anos tenha sido outra: não existe uma solução única. A tecnologia pode medir, antecipar e ajudar a decidir, mas não substitui as pessoas. Podemos criar ferramentas cada vez mais inteligentes sem resolver, por si só, uma questão muito mais antiga e profundamente humana: o valor que damos aos alimentos.
Nenhum alimento começa numa prateleira de supermercado.
Antes dele houve terra. Houve água. Houve energia. Houve tempo. E houve alguém.
Alguém semeou, cuidou, colheu. Alguém transformou, transportou, armazenou, vendeu. Há recursos, conhecimento e trabalho escondidos por detrás da aparente simplicidade de um alimento.
Quando o desperdiçamos, não deitamos fora apenas aquilo que vemos. Deitamos fora um pouco de tudo aquilo que foi necessário para que chegasse até nós.
E perdemos o seu propósito mais elementar: alimentar alguém.
Talvez por isso este 29 de setembro deva servir menos para repetirmos aquilo que já sabemos e mais para perguntarmos o que estamos a fazer com esse conhecimento.
O WASTELESS terminou formalmente em maio. Confesso que é estranho escrever a palavra “terminou”.
Porque há projetos que terminam numa data e há projetos que continuam na forma como passamos a olhar para um problema.
Ficam dados, ferramentas e resultados. Mas ficam, sobretudo, pessoas. Investigadores que fizeram novas perguntas, empresas que aceitaram testar soluções, especialistas que partilharam conhecimento, famílias que abriram as suas cozinhas à investigação e cidadãos que aceitaram olhar para os seus próprios hábitos.
Talvez esse seja um dos legados mais difíceis de medir. E, ironicamente, um dos mais importantes.
Hoje sabemos mais. E saber traz consigo uma responsabilidade.
Depois de conhecermos o problema, já não podemos dizer que não o vimos. Depois de encontrarmos soluções, não podemos deixá-las esquecidas num relatório ou numa publicação científica.
Talvez, por isso, a pergunta mais importante já não seja quanto desperdiçamos?
Talvez seja outra: o que vamos fazer com aquilo que já sabemos?
A ciência deu-nos conhecimento. A tecnologia deu-nos ferramentas. Agora, a responsabilidade é nossa.
A terra fez a sua parte. O tempo também. E alguém cuidou para que o alimento chegasse até nós. Talvez nos caiba não deixar perder essa história.
Ana Novo Barros
Coordenadora do projeto europeu WASTELESS
Professora Associada com Agregação, UTAD/CITAB















