Tantas vezes somos nós mesmos que amputamos a nossa vitalidade por medo de viver. Cortamos o impulso de rir alto, de criar sem perfeição, de dizer o que importa, porque um medo subtil nos sussurra que podemos perder tudo se nos entregarmos demais. É nesse ponto que o desapego é mal compreendido.

O verdadeiro desapego não nos pede para abrir mão das coisas belas da vida. Não nos pede para desprezar uma casa bem cuidada, um livro amado, uma relação que nos aquece, o dinheiro que garante segurança. Essas são formas materiais e imateriais de valor que sustentam o nosso caminho. O problema nunca está no objeto, está na mão que o segura como se dele dependesse a nossa respiração.
Desapegar, no sentido que importa, é libertarmo-nos do medo crónico de perder. É perceber que o apego rígido, transforma o cuidado, em prisão. Quando amamos algo e precisamos disso para ser quem somos, ele deixa de ser um presente e passa a ser uma corrente. O desapego dissolve essa corrente sem quebrar o afeto.
Quando confiamos na generosidade infinita do fluxo existencial, algo muda na nossa relação com o tempo. Percebemos que os valores imateriais, paz, presença, integridade, criatividade e amor, não se desgastam com o uso. Pelo contrário, crescem quando são partilhados. E os valores materiais cumprem o seu papel quando circulam: a casa abriga, o dinheiro serve, os objetos contam histórias, mas nenhum deles define o nosso centro.
Nessa confiança, fica claro que o que é nosso, por direito divino, permanece. Não porque o agarramos com força, mas porque está alinhado com quem somos. E o que se vai, ao ser desapegado, apenas abre espaço. Espaço para novas relações, para lições que ainda não compreendemos, para versões de nós que ainda não nasceram. A perda deixa de ser ameaça e torna-se poda.
Cultivar esse olhar é prático, significa usar as coisas sem sermos usados por elas, ou ser “escravos” da sua posse. Significa agradecer o que está presente, sem hipotecar o agora, ao medo do depois. Significa construir segurança material sem transformar segurança em identidade.
No fim, o desapego não esvazia a vida. Ele limpa o ruído para que a vida possa entrar inteira. E quando isso acontece, percebemos que a nossa presença firme é o único património que não se perde. Todo o resto passa. E está bem que passe.
Não podemos ser “escravos” de bens materiais e imaterialidades, que nos subtraem a vida e não nos dão VIDA, com bom humor, harmonia, entusiasmo e alegria.

Nuno Pires
21/05/2026

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