Há uma coisa que os portugueses levam muito a sério: fenómenos.
Pode ser um eclipse, uma chuva de estrelas, uma superlua ou uma trovoada que faça o céu parecer cenário de filme. Basta saber-se que alguma coisa fora do normal vai acontecer e, de repente, o país inteiro fica de olhos postos no céu.
Foi assim a 12 de agosto. O eclipse ainda nem tinha acontecido e já havia quem tivesse feito o mais português dos preparativos: garantir os óculos. Esgotaram-se aqui e ali, porque, perante um fenómeno raro, há sempre uma pergunta que se impõe: “E se depois já não houver?”
É um reflexo que já conhecemos.
Na pandemia, foram rolos de papel higiénico. No apagão, supermercados e frigoríficos entraram em modo de emergência. Quando se anuncia um fenómeno qualquer, há sempre alguém a fazer contas, a abastecer-se ou simplesmente a mandar uma mensagem: “Já viste o que vai acontecer?”
Talvez seja esta a nossa forma muito própria de lidar com o inesperado: primeiro, entramos em alerta; depois, compramos qualquer coisa; e, finalmente, queremos fotografar tudo.
Porque os portugueses não gostam apenas de assistir a fenómenos. Gostam de estar preparados para eles. E, se possível, contar a toda a gente que estiveram lá.
No fundo, entre o papel higiénico, as compras do apagão e os óculos do eclipse, há uma linha comum: perante o extraordinário, Portugal organiza-se.
À sua maneira, claro.
Com alguma preocupação, uma ida ao supermercado, uma pesquisa rápida na internet, fotografias para as redes sociais e mensagens no WhatsApp. Porque hoje já não basta viver um fenómeno: é preciso saber exatamente a que horas acontece, pesquisar onde se vê melhor, fotografá-lo, publicá-lo e, se possível, acompanhar tudo em direto.
Talvez por isso o apagão tenha sido especialmente desconcertante. Pela primeira vez, o país inteiro tinha um acontecimento para comentar e, justamente quando mais queria mostrar ao mundo o que estava a acontecer, ficou sem internet, sem televisão e sem forma de publicar o tradicional “malta, está tudo às escuras”. Ironia das ironias: durante o eclipse também ficou tudo às escuras, mas aí ninguém entrou em pânico. Havia contagem decrescente, óculos especiais e, sobretudo, internet para fotografar, publicar e provar que, finalmente, aquele momento por que tantos dias se esperou tinha mesmo acontecido.
E talvez aí esteja a verdadeira essência portuguesa: podem faltar a luz, a internet e até os óculos para o eclipse. O que dificilmente falta é assunto para contar depois.
Vitória Botelho, Jornalista
















