Há lugares que são mais que lugares. São morada de afetos.
Os Chãos, em Vale de Nogueira, é um desses lugares: chão batido de poeira e de fé, de feira e de romaria, onde o Nordeste inteiro parece combinar encontrar-se.
Setembro vai já na segunda semana. O verão despede-se devagar, como quem fica na soleira da porta, e com ele vai-se esvaindo o tempo das festas, dos santos padroeiros, dos andores enfeitados e dos foguetes a rasgar o céu. Ainda há festas no calendário, é certo, mas há uma que me chama sempre pelo nome: a do Divino Senhor da Agonia dos Chãos.
E chama-me por duas razões muito fundas.
Primeiro, porque os Chãos são passagem obrigatória no meu caminho de regresso à Frieira, aldeia que levo sempre comigo. Depois, porque ali ficaram guardadas memórias da minha meninice. Lembro-me bem dos homens da Confraria a bater de porta em porta, de aldeia em aldeia, a recolher os donativos, passando pela casa dos meus pais. Lembro-me da “ida à festa” como se fosse hoje. Lembro-me da Feira dos Chãos, para onde se ia a pé, para comprar e vender de tudo um pouco – produtos da terra, animais. E, sobretudo, não me esqueço da merenda, preparada em família, comida à sombra, com sabor a festa.
Não admira que tenha ficado esta familiaridade com o lugar e com o Santuário. E o que acontece comigo, acontece com milhares de transmontanos.
Como é habitual, a programação deste ano foi vasta e diversificada, tendo como ponto alto a Eucaristia Solene e a majestosa Procissão. A tradicional Chega de Touros é, também, uma referência com identidade própria.
Motivos para ir aos Chãos, portanto, não faltaram. Agora ainda menos, que a acessibilidade rodoviária melhorou consideravelmente.
É que, para além do grande espaço livre que envolve todo o complexo, o santuário está posicionado num lugar privilegiado, que geograficamente consegue congregar gentes das mais variadas origens. Ali torna-se possível partilhar o mesmo ambiente, num contexto social heterogéneo, é certo, mas convergente na fé. E isso é um sinal bonito de intimidade espiritual e de comunhão.
É também um sinal de esperança e de confiança no trabalho dos leigos, sobretudo da Comissão de Festas, a qual reunindo esforços contínua a melhorar condições e infraestruturas cada vez mais confortáveis e acolhedoras, promovendo um mundo mais justo e fraterno.
Os Chãos são, com efeito, um lugar de encontro, onde as pessoas podem refletir e interagir de forma criativa e dinâmica, com entusiasmo e vivacidade, potenciando os laços de religiosidade e amizade que confortam, unem e fortalecem.
É importante que quem passa, ou ali se desloca de propósito, aproveite o momento e o tempo, no envolvimento saudável e, no final, faça uma reflexão serena: valeu a pena? A minha presença e a minha partilha vão contribuir, ainda que minimamente, para melhorar a vida de cada um no seu dia a dia?
Que o Divino Senhor da Agonia dos Chãos desperte e potencie a racionalidade, onde a fé seja sempre inseparável da afetividade e da inteligência, integrada numa vivência e cultura popular profundas, fazendo confluir a energia positiva, mantendo-se o respeito pela integridade e pelos ritmos de cada um dos que ali chegam.
Nuno Pires
12/09/2026
















