Há um Evangelho antigo, lido e relido nas Celebrações Eucarísticas. Fala de dois homens que subiram ao Templo para rezar. Um era fariseu. De costas direitas e palavras medidas. O outro era publicano. De olhos no chão e coração nas mãos.
Séculos passaram. Se as pedras do Templo, eventualmente, mudaram, os homens são os mesmos.
Hoje rezam no eirado da aldeia, na praça da vila, no ecrã do telemóvel e na sala das reuniões. Ainda somos fariseus e publicanos.
E, confesse-se, às vezes também vilões
disfarçados de gente de bem.
O problema não é sermos. O problema é não nos vermos. Falta-nos o espelho limpo da consciência. Falta-nos a coragem humilde de perguntar em voz alta: Quem sou eu quando ninguém me vê? Como vivo? Porquê vivo assim?
E a resposta vem, baixinho, como o vento na seara. Mas nós tapamos os ouvidos com barulho.
Vivemos num tempo de feira. Um mediatismo doentio que grita, vende, promete, mas não alimenta. É como palha: enche o olho e não dá pão. As vaidades vestem fato novo para a missa de domingo e esquecem a enxada, o suor e a verdade da segunda-feira.
Há quem fale de valores como quem lê o título do jornal. Mas não vive o texto.
Onde estão as referências?
Pergunto como quem pergunta pela fonte no monte. Onde estão os líderes que cheiram a pão quente e não a promessa que esfria?
Os que dão o exemplo como quem dá água à sede, e não sombra para esconder o próprio defeito? O povo precisa de farol, não de fumo.
Precisa de mãos calejadas que abençoem,
não de mãos limpas que apontem. E há os fariseus novos. Sentam-se à mesa grande.
Falam bonito, citam doutores, usam palavras pesadas. Mas passam ao lado do caído na berma da estrada. Fazem silêncio pilatiano.
Lavagem de mãos com água benta. Cumplicidades frias que se vestem de neutralidade para não incomodar ninguém.
E no silêncio discreto cresce o joio.
O egoísmo aprendeu a vestir-se de Amor. Diz que é pelo bem comum. Mas só quer a primeira fila na procissão. Só quer o melhor lugar na tribuna. Confunde serviço com estatuto. Confunde fé com fachada.
Eu venho da terra. Da terra onde se aprende cedo que o grão só nasce depois da chuva e da espera. Que não há colheita sem poda. Que a eira se varria todos os dias para separar o trigo do joio. E a nossa sociedade hoje precisa dessa eira. Precisa de varrer.
Jesus escandalizou o seu tempo. Sentou-se à mesa com os publicanos. Partiu o pão com quem a religião formal rejeitava. E essa mesa foi revolução. Porque Deus não escolhe casta.
Deus escolhe coração. Deus escolhe quem reconhece a própria fragilidade e a oferece como oferenda.
Ser religioso, assumir a fé formalmente, não é ter a verdade guardada no bolso do colete.
É caminhar na Luz. Todos os dias.
É fazer da fé enxada que lavra a dureza do chão. É fazer da justiça a água que rega a sede do outro. É fazer da paz o trigo que se reparte na casa comum. É ter a coragem do publicano:
“Bate no peito e diz: tem piedade de mim, que sou pecador.”
Que o nosso jeito não se torne enjeito. Que a nossa voz não se perca na vaidade. Que a nossa aldeia, a nossa cidade, o nosso país,
sejam uma eira grande onde se junta o bom grão. Onde se acolhe quem erra e quer voltar. Onde se constrói ponte em vez de muro. Onde a Fé não divide, soma. Onde a religião não afasta, aproxima. Onde o Evangelho não é bandeira, é pão.
No fim, ficaremos todos no mesmo Templo.
Fariseus e publicanos. Com as mesmas mãos para pedir perdão e as mesmas mãos para dar a mão.
Que Deus nos livre do farisaísmo que cega
e nos dê a humildade que cura. Para que possamos, enfim, viver em harmonia, em verdade e em alegria contagiante.

Nuno Pires
20/082026

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