A vida, em todos os seus aspetos, deve ser sustentada em valores educativos,
formativos, harmoniosos e positivamente interativos, que valorizem as pessoas e sejam exemplos vivos. Não basta falar. É preciso ser.
Não basta ensinar. É preciso testemunhar.
Nunca se deve esquecer a importância
da pedagogia do amor, do perdão, da gratidão,
da compreensão e da reconciliação.
Porque é isso que nos faz humanos antes de qualquer título. Portanto, não deve ser exaltado
o rancor, o ressentimento, o ódio,
a vingança, a inveja, o ressabiamento, muito menos uma postura de sumário julgamento,
sem justificado fundamento!
Essas são pedras que se atiram ao rio e só fazem ondas sujas. Tudo isto deve fazer parte da vida de um cristão. Deveria ser o primeiro capítulo e o último. Amar o próximo como a si mesmo. Perdoar setenta vezes sete. Servir e não ser servido.
Só que há exemplos e posturas, sustentados em cérebros onde a pedagogia do amor,
do humanismo cristão, da tolerância e do perdão, sofrem evidente amputação. É como uma árvore sem raízes. É como uma casa sem chão. O pior, o mais doloroso, é quando este protagonismo vazio é exercido por oradores de púlpitos, por vozes que deveriam ser abrigo,
mas que trazem no peito pensamentos egoístas, avarento, vaidosos, vingativos e maldosos.
Como pode alguém falar de amor com a boca cheia de fel? Como pode alguém falar de perdão com as mãos fechadas em punho?
Como pode alguém falar de humildade vestido de vaidade dos pés à cabeça?
É caso para perguntar, em voz alta: como certa gente pode estar a liderar processos de aprendizagem e de formação, que vão muito além da exigida a um simples cidadão?
A quem se dá muito, muito será pedido.
E eu penso na nossa ponte românica. Aquela ponte antiga, de pedra firme, que há séculos liga margens, que aguenta cheias e estiagens,
que não escolhe quem passa. Rico, pobre, romeiro ou forasteiro. Todos têm passagem.
Penso na nossa ribeira. Água que corre, limpa a pedra, leva embora o que estorva, e mesmo quando parece pequena, continua, teimosa, a abrir caminho. A ponte não grita. Sustenta. A ribeira não julga. Lava.
E é essa a pedagogia que falta: a pedagogia silenciosa, a pedagogia do exemplo vivo.
Não precisamos de discursos altos
se a vida grita o contrário. Não precisamos de sermões longos se o coração é curto.
Precisamos de gente-ponte. Gente que liga em vez de separar. Gente-ribeira. Gente que corre para o bem, que irriga o seco, que dá de beber mesmo com sede. Porque no fim, o que fica
não é o volume da voz, nem o peso do título,
nem a dureza da sentença. O que fica é o abraço que não foi dado, a palavra que não foi dita, a mão que não foi estendida.
Ou então, o contrário: a luz que se acendeu porque alguém se lembrou de ser luz.
Sejamos, pois, discípulos da ponte e aprendizes da ribeira.
Que o nosso cristianismo não seja cartaz, mas caminho. Que a nossa fé não seja vitrine, mas casa aberta. E que nunca nos esqueçamos: educar é amar em tempo inteiro. Formar é perdoar em tempo inteiro. Viver é reconciliar em tempo inteiro.
Sem isso, de que vale o púlpito?
Sem isso, de que vale a palavra?
Nuno Pires
08/08/2026














