Ao longo do último século, a melhoria das condições de vida, o acesso à vacinação, os avanços da medicina, o controlo das doenças infeciosas, a redução da mortalidade infantil e o desenvolvimento dos sistemas de saúde transformaram profundamente a nossa relação com a idade e com a morte.

Hoje, chegar aos 70, 80 ou mesmo aos 90 anos deixou de ser uma exceção. Mas esta extraordinária conquista coloca-nos perante uma pergunta que talvez seja mais importante do que a própria longevidade:

Estamos a viver mais ou estamos simplesmente a morrer mais tarde?

A diferença parece subtil. Na realidade, é enorme. Mais anos de vida não significam necessariamente mais anos com saúde

Quando falamos de longevidade, habitualmente pensamos na esperança de vida, ou seja, no número de anos que, em determinado contexto, uma pessoa pode esperar viver. Mas existe outro indicador talvez ainda mais importante: a esperança de vida saudável.

A Organização Mundial da Saúde define-a como o número médio de anos que uma pessoa pode esperar viver em condições de plena saúde, tendo em conta os anos vividos com doença ou incapacidade.

E é aqui que surge o paradoxo.

Globalmente, a esperança de vida à nascença atingiu 73,3 anos em 2024, mais 8,4 anos do que em 1995. No entanto, viver mais não significa necessariamente viver melhor durante todo esse tempo. Ou seja, ganhámos anos de vida mais rapidamente do que conseguimos ganhar anos de vida saudável.

E em Portugal?

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, a esperança de vida à nascença em Portugal aumentou de 76,6 anos em 2000 para 81,2 anos em 2021. No mesmo período, a esperança de vida saudável aumentou de 66,1 para 69,5 anos. Isto significa que o nosso país conseguiu acrescentar anos à vida, mas permanece uma diferença importante entre o tempo total de vida e o tempo vivido em boas condições de saúde.

Esta realidade obriga-nos a repensar aquilo que entendemos por envelhecimento.

Uma população mais envelhecida não significa necessariamente uma população mais doente. Envelhecer não é uma doença. É um processo biológico, individual e inevitável. O verdadeiro desafio está em perceber como podemos envelhecer preservando, durante o maior tempo possível, a capacidade de decidir, de participar, de nos movimentarmos, de estabelecer relações e de realizar as atividades que dão sentido à nossa vida.

É precisamente esta perspetiva que está no centro do conceito de envelhecimento saudável defendido pela Organização Mundial da Saúde: desenvolver e manter a capacidade funcional que permite o bem-estar na idade avançada.

Imagine duas pessoas com 85 anos. Uma continua a caminhar diariamente, participa na vida familiar, lê, viaja quando pode, toma decisões sobre a sua vida e mantém relações sociais significativas. A outra vive dependente de terceiros, com múltiplas doenças crónicas, limitações funcionais, isolamento e perda progressiva de autonomia. Ambas têm 85 anos, mas dificilmente podemos dizer que vivem a mesma experiência de envelhecimento.

Durante décadas, uma das grandes conquistas da medicina foi evitar a morte. Hoje, o desafio é mais complexo: Como podemos adiar a doença, a incapacidade e a perda de autonomia?

Uma grande parte daquilo que determina a forma como envelhecemos começa muito antes dos 65 anos. Uma alimentação equilibrada, atividade física regular, sono adequado, não fumar, consumo responsável de álcool, vacinação, controlo da hipertensão e da diabetes, promoção da saúde mental, manutenção de relações sociais e acesso adequado aos cuidados de saúde contribuem para a trajetória de saúde ao longo da vida.

A prevenção, por isso, não deve ser entendida como algo que começa quando envelhecemos. Começa muito antes. O problema não é apenas viver mais. É viver com autonomia.Talvez seja esta uma das questões mais importantes quando falamos de longevidade.

Conseguir levantar-se de uma cadeira. Caminhar. Preparar uma refeição. Tomar banho sem ajuda. Fazer compras. Manter uma conversa. Tomar decisões. Continuar a participar na comunidade. São gestos aparentemente simples, mas que traduzem algo fundamental: autonomia e capacidade funcional.

É por isso que não basta perguntar quantos anos conseguimos acrescentar à vida.

Temos de perguntar quantos desses anos conseguimos viver com saúde, autonomia, dignidade e propósito.

Talvez a pergunta do futuro não seja:

Até que idade conseguiremos viver?

Mas sim:

Até que idade conseguiremos viver bem?

Porque uma sociedade verdadeiramente desenvolvida não será aquela que simplesmente consegue manter as pessoas vivas durante mais tempo. Será aquela que consegue criar condições para que possam viver com saúde, dignidade, autonomia e propósito durante o maior número possível de anos.

A longevidade foi uma das grandes conquistas da medicina. Transformá-la em vida saudável, com capacidade funcional e qualidade de vida, será o próximo grande desafio!

Artigo escrito por Maria Luís Domingues, enfermeira, membro da Associação de Profissionais de Saúde do Alto Tâmega e Barroso (APSAT)

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