Sempre que uma tragédia envolve uma criança, a reação imediata da sociedade é procurar respostas. Queremos compreender o que aconteceu, identificar responsabilidades e encontrar explicações para aquilo que, muitas vezes, parece incompreensível.

Mas, ultrapassado o choque inicial, talvez devêssemos ter a coragem de fazer perguntas mais difíceis.

Estamos verdadeiramente preparados para reconhecer o sofrimento quando ele ainda não é evidente?

Estamos a dar às famílias, às crianças e às instituições os recursos necessários para intervir antes que as situações atinjam um ponto de rutura?

Que importância atribuímos, enquanto sociedade, à prevenção, à saúde mental e ao acompanhamento das situações de vulnerabilidade?

E quantas vezes apenas olhamos para estes problemas depois de já não ser possível voltar atrás?

É neste contexto que o papel das instituições assume particular relevância. Escolas, serviços de saúde, CPCJ, tribunais, forças de segurança e estruturas de apoio social constituem uma rede essencial de proteção das crianças e das famílias. Mas a responsabilidade não é apenas institucional. É também coletiva.

Muitas vezes os sinais existem muito antes de uma situação atingir um ponto de não retorno. Existem alterações de comportamento, sofrimento emocional, conflitos persistentes, pedidos de ajuda diretos ou indiretos, situações de isolamento ou fragilidade psicológica. Nem sempre esses sinais são valorizados ou compreendidos a tempo.

A proteção da infância não pode resumir-se à reação perante uma tragédia. A verdadeira proteção começa muito antes. Começa na prevenção, na educação, no acompanhamento das famílias, no acesso à saúde mental e na capacidade de intervir quando surgem os primeiros sinais de alerta.

Continuamos, enquanto sociedade, a falar pouco sobre sofrimento psicológico, violência emocional, exaustão, isolamento e saúde mental. E muitas vezes só olhamos para estas realidades quando já ocorreu o pior.

Talvez a reflexão que devemos fazer não seja apenas sobre o que falhou num determinado momento.

Talvez devamos perguntar-nos o que estamos a fazer, todos os dias, para que menos crianças cresçam em contextos de sofrimento e para que menos famílias cheguem a situações de rutura ou desespero.

Porque nenhuma sociedade pode considerar cumprido o seu dever para com as crianças quando a sua intervenção começa apenas depois da tragédia.

Artigo escrito por Mónica Passas Teixeira –  Advogada

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