Hepatites virais: a importância de diagnosticar antes que seja tarde

No imaginário coletivo, tendemos a associar a doença à dor, ao desconforto ou a sinais evidentes de que algo não está bem. No entanto, a medicina ensina-nos, repetidamente, uma realidade diferente: algumas das doenças mais graves evoluem precisamente em silêncio. As hepatites virais são um dos exemplos mais paradigmáticos dessa realidade.
Assinala-se a 28 de julho o Dia Mundial da Hepatite, uma data que deve servir muito mais do que para recordar uma doença. Deve ser encarada como uma oportunidade para sensibilizar a população para um problema de saúde pública que continua a afetar milhões de pessoas em todo o mundo e que, paradoxalmente, permanece muitas vezes invisível.
O fígado é um dos órgãos mais extraordinários do corpo humano. Desempenha centenas de funções vitais: metaboliza nutrientes, produz proteínas essenciais, participa na coagulação do sangue, elimina toxinas, regula o metabolismo dos lípidos e da glicose e desempenha um papel determinante na resposta imunitária. Apesar desta complexidade, possui uma enorme capacidade de regeneração, razão pela qual consegue compensar agressões durante anos sem manifestar sintomas evidentes.
É precisamente esta capacidade que torna as hepatites virais particularmente perigosas.
As hepatites B e C podem permanecer assintomáticas durante décadas. Enquanto a pessoa mantém uma vida aparentemente normal, o vírus continua a provocar inflamação crónica das células hepáticas. Progressivamente, instala-se fibrose, que poderá evoluir para cirrose e, em alguns casos, culminar em carcinoma hepatocelular, uma das formas mais frequentes de cancro do fígado.
Quando surgem manifestações clínicas como fadiga intensa, perda de peso, icterícia, ascite ou hemorragias digestivas, muitas vezes a doença já atingiu um estádio avançado, limitando significativamente as opções terapêuticas.
É por isso que o verdadeiro desafio não está apenas no tratamento. Está no diagnóstico precoce.
A evolução científica das últimas décadas alterou profundamente o prognóstico destas infeções. A hepatite C, que durante anos foi considerada uma doença crónica de difícil resolução, dispõe atualmente de terapêuticas antivíricas de ação direta que permitem taxas de cura superiores a 97%, incluindo em Portugal. Trata-se de uma das maiores conquistas da medicina moderna no combate às doenças infeciosas.
Também na hepatite B, embora ainda não exista uma cura definitiva, existem tratamentos altamente eficazes capazes de controlar a replicação viral, reduzir a inflamação hepática e diminuir significativamente o risco de evolução para cirrose ou cancro do fígado.
Mas nenhuma destas conquistas científicas produz impacto se os doentes não forem identificados.
Daí a importância de promover o rastreio. Um simples teste sanguíneo pode alterar completamente o percurso de vida de uma pessoa. Atualmente recomenda-se que, pelo menos uma vez na vida, todos os adultos realizem o despiste das hepatites B e C, sobretudo aqueles que apresentam fatores de risco conhecidos ou que nasceram em épocas anteriores à implementação de estratégias universais de prevenção.
A prevenção continua, naturalmente, a ser a arma mais poderosa.
A vacinação contra a hepatite B, integrada há décadas no Programa Nacional de Vacinação, representa um dos maiores sucessos da saúde pública portuguesa, protegendo desde o nascimento milhares de crianças contra uma infeção potencialmente grave. Paralelamente, a adoção de comportamentos seguros, a utilização de material esterilizado em procedimentos invasivos e a vigilância das vias de transmissão continuam a desempenhar um papel fundamental.
Mais do que uma data comemorativa, o Dia Mundial da Hepatite recorda-nos um princípio essencial da medicina preventiva: a ausência de sintomas nunca deve ser confundida com ausência de doença.
Vivemos numa época em que dispomos de conhecimento científico, tecnologia diagnóstica e tratamentos altamente eficazes. A responsabilidade passa agora por garantir que essa capacidade chega às pessoas antes que o silêncio da doença se transforme numa consequência irreversível.
Porque, muitas vezes, a maior vitória da medicina não acontece quando salva uma vida em estado crítico.
Acontece quando impede que essa vida chegue a esse ponto.

Artigo escrito por Carla Barroso Reis, enfermeira, membro da Associação de Profissionais de Saúde do Alto Tâmega e Barroso (APSAT)

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