As relações são como jardins. Às vezes ficam só em erva pisada, contactos de passagem que não dão flor.
Seria um milagre que todos florescessem. Mas talvez baste que alguns sejam estufa: espaço de clareza, honestidade e afeto. Mesmo que a luz ali dentro seja pouca, que seja luz boa.
Na vida inteira, por mais generosos que sejamos, são raros os corações que nos escolhem e acolhem. Os que nos querem bem sem conta, valorizam a nossa sombra e o nosso sol, e estendem a mão sem pedir recibo.
Infelizmente, há quem vire o rosto quando caímos na “mó de baixo”. Há quem nos meça com réguas tortas. Neste contexto, há conhecidos ou desconhecidos, que atiram pedras de crítica, mordazes e sem chão.
Há risos pelas costas, sem causa. Só para engordar um ego faminto. Há quem teça histórias sobre nós sem conhecer a nossa casa por dentro. É a vida a acontecer, crua e ativa.
Há outros que se escondem à espera do nosso tropeço. Esperam a queda para escrever a sentença com tinta leve. Que tristeza. São almas à deriva, em barcos vazios, onde a insatisfação é vento que só empurra para dentro. Tantas vezes, aplaudem multidões que não conhecem. Mas ficam mudos diante do amigo que sangrou para vencer. Uma autêntica tristeza.
Vão à Eucaristia, dizem-se cumpridores. Mas esquecem que Deus é espelho e vê tudo.
Então, seguimos. Com passo claro e bússola firme. Sempre haverá olhares invisíveis, que não nos seguem, não partilham o nosso pão, mas vivem de vigiar a nossa mesa. Sempre haverá gente azeda, ingrata, mal-amada.
Não são monstros. São jardins sem água, almas perdidas em si, que preferem olhar o quintal alheio a cultivar o seu. Talvez um dia entendam que é por isso que a vida não dá fruto, não é leve nem bonita.
Mas nada nem ninguém nos rouba a paz interior, o brilho do nosso olhar, nem a essência do amor.
Até quem nos atrapalha, sem saber, pode ser vento contrário que nos ensina a firmar a raiz. E a viver com alegria, que é a nossa forma de ser.
Nuno Pires
02/07/2026













