No futebol, como na vida, o vento muda de quadrante em 90 minutos. O que hoje é verdade, amanhã é rumor. E numa modalidade feita de paixão, dinheiro e imprevisto, a credibilidade às vezes escorrega como relva molhada.
Vem isto a propósito das famosas “chicotadas psicológicas”.
Aquele gesto de cortar a cabeça para ver se o corpo acorda. Em Portugal e no mundo inteiro, por “tudo e por nada”, muda-se o técnico.
Como se a troca de um homem fosse varinha mágica para sarar feridas de um coletivo.
Há vezes em que resulta. O balneário respira, a bola entra, e diz-se que foi o novo.
Há mais vezes em que “é pior a emenda que o soneto”. Troca-se o nome na porta, mas o barco continua a meter água.
Num tempo em que tudo se programa, se analisa, se mede ao milímetro, a decisão de derrubar um treinador devia ser de pedra, não de palha. Devia ser ponderada, sustentável, objetiva. Porque quando se arranca uma raiz, arrancam-se também planos, ideias, processos que estavam a germinar.
Será que um clube é só o resultado do último domingo, ou do último jogo?
Será que uma fase má apaga meses de trabalho, disciplina, organização, gestão de gente?
O futebol não é só golo. É balneário. É formação. É direção. É paciência.
Mas a pressa não espera. E, às vezes, a tesoura corta por interesses que nada têm a ver com a tabela. Corta por vaidades, por egos, por jogos que se jogam fora das quatro linhas.
E aqui cabe outra pergunta, que poucos fazem:
E os dirigentes?
Quem avalia a competência de quem comanda o comando?
Falta, em muitos sítios, formação. Falta visão. Falta cimento no alicerce. Falta criatividade para gerir gente e dinheiro sem incendiar tudo ao primeiro tropeço.
Trocar de treinador é fácil. É rápido. É manchete. Construir projeto é lento. É silencioso. É tijolo a tijolo. É regar mesmo quando não chove.
Talvez o futebol voltasse a ter rosto humano
se os clubes lembrassem que equipa não se faz de gritos, se faz de presença que fica.
De mão que estende. De paciência que não cobra, mas acredita.
Porque no fim, não é a chicotada que salva.
É a ponte que se constrói e não se deita abaixo ao primeiro vento.

Nuno Pires
08/07/2026

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