Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa. Este é um dado amplamente conhecido e repetido sempre que se discute sustentabilidade da Segurança Social, pressão sobre os cuidados de saúde ou respostas sociais para a população sénior. 

Mas há uma dimensão deste envelhecimento coletivo que continua praticamente ausente do debate público: a invisibilidade narrativa das pessoas mais velhas. 

Falamos de envelhecimento em números. Falamos de dependência, de pensões, de cuidados, de lares, de esperança média de vida. Mas raramente falamos das pessoas enquanto detentoras de memória, experiência e identidade coletiva. 

De forma quase inconsciente, fomos empurrando os mais velhos para um lugar social onde são vistos sobretudo pelas suas necessidades e cada vez menos pelo valor da sua história. 

E isso devia preocupar-nos. 

Numa sociedade obcecada com velocidade, produtividade e novidade, ouvir exige tempo. Fazer perguntas exige presença. Escutar verdadeiramente implica reconhecer valor naquilo que a outra pessoa tem para dizer. Talvez por isso este seja um exercício cada vez mais raro. 

O problema é que aquilo que se perde não é apenas individual ou familiar. É também coletivo. 

Cada pessoa idosa carrega consigo um património imaterial feito de memórias, contextos, vivências e perspetivas sobre o mundo que não existem em mais lado nenhum. Quando essas histórias desaparecem sem serem escutadas, perde-se muito mais do que recordações privadas. Perde-se contexto histórico, identidade cultural e compreensão intergeracional. 

Num país que viveu ditadura, emigração massiva, transformações sociais profundas, mudanças económicas e revoluções culturais em poucas décadas, não preservar a memória viva das pessoas é desperdiçar uma parte importante da nossa própria história. 

Há também aqui uma contradição curiosa. 

Nunca documentámos tanto a nossa vida como hoje. Fotografamos tudo, filmamos tudo, guardamos tudo. E, no entanto, talvez nunca tenhamos sido tão frágeis na preservação daquilo que realmente importa: as histórias, os significados, os testemunhos humanos. 

Guardamos imagens, mas não necessariamente memória. 

Talvez porque confundimos registo com preservação. 

Mas preservar não é apenas acumular ficheiros digitais. Preservar é ouvir. É contextualizar. É reconhecer valor antes que seja tarde. 

Este não é apenas um tema emocional ou familiar. É um tema social. 

Num país envelhecido, continuar a ignorar a voz dos mais velhos é também uma forma silenciosa de exclusão. 

E talvez esteja na altura de começarmos a falar sobre isso. 

Rita Seara, Fundadora do Jardim das Memórias 

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