Como quem me lê há décadas sabe, gosto de desporto. De comentar, ver e praticar. Pratico regularmente, umas modalidades mais que outras. Gosto de futebol, claro, mas também de voleibol e dos jogos tradicionais e populares.
Dos jogos da minha infância, adolescência e juventude guardo boa memória. Mesmo sabendo que muitos estão em desuso, quase em extinção. Lembro-me da altura em que uma boa parte do tempo livre não se gastava dentro de um café ou taberna de aldeia. Investia-se a jogar ao fito, à relha, ao calhau, ao xino, à macaca, à bilharda.
Para além da dinâmica social que criavam, esses jogos despertavam o gosto pela cultura local, desenvolviam o raciocínio e o corpo. Os desportos tradicionais davam vida aos meios rurais, onde a televisão, quando existia, era um luxo raro.
Hoje tudo mudou. Os hábitos urbanos pouco convidam a isso, e o despovoamento do campo não ajuda. Mesmo com os reflexos da idade, continuo a ocupar-me com atividade física pelo menos duas vezes por semana. Não dispenso. É para dizer que o meu espírito continua desportivo e disponível para promover o movimento e o conhecimento.
Isto não é contra modalidade nenhuma. Reconheço o valor de todas. O que me custa é ver a mercantilização a desvirtuar a filosofia original do desporto. Com o tempo, tudo ficou mais apaixonado efervescente, e isso leva, vezes demais, a atentados contra a dignidade e ao desrespeito entre pessoas.
O que quero chamar à atenção agora é a mediatização excessiva da bola. Do futebol.
Basta olhar para os investimentos, para as desigualdades que alimenta e para o espaço mediático que ocupa. Parece que os padrões culturais e educativos de uma sociedade moderna emergem do mundo da bola. Mas não emergem. Felizmente.
Com tantos problemas sociais, económicos, ambientais, culturais, espirituais que atravessamos, pobreza extrema, fragilidade nas relações humanas, somos contínua e sistematicamente bombardeados com notícias, reportagens, comentários e fofoquices em que o futebol é o rei.
Sim, é o desporto-rei. Mas daí a ocupar tanto espaço e tempo na vida coletiva vai uma distância enorme.
Basta ver a abertura dos telejornais, os espaços de rádio, as páginas dos jornais e revistas. Pergunto-me: o facto de duas dúzias de homens a ganhar milhões por chutar uma bola, por vezes orientados por quem mal constrói uma frase, merece mesmo tanta atenção? Contribui, na proporção devida, para o desenvolvimento global e equilibrado de uma sociedade, sobretudo no plano educativo e formativo?
Compreendo que o desporto em geral e o futebol em particular mereçam atenção mediática. Mas na justa medida.
Haja moralidade e sentido de prioridade naquilo que escolhemos colocar no centro da conversa pública.
Artigo escrito por Nuno Pires
14/05/2026












