Já por diversas vezes escrevi sobre o tema das Festas Populares. As festas que mobilizam e animam o povo, a aldeia, a vila ou a cidade. Todas com a sua especificidade, todas a tentar manter, na medida do possível, a sua identidade.
Desta feita, ainda que levemente, quero abordar duas palavras que andam meio esquecidas neste arraial: “envolvimento” e “discernimento”.
1. Do envolvimento
Estou convicto de que, na maior parte dos casos, quem se disponibiliza para colaborar ou assumir responsabilidade na organização de uma atividade festiva, sobretudo de índole religiosa, fá-lo imbuído de boa-fé. De desprendimento. De voluntariado. De ajuda desinteressada para o bem comum.
E é bonito ver. É ver gente a carregar mesas, a montar palcos, a cozer no tacho grande, a pedir donativos porta a porta. É ver tempo dado sem fatura.
Se essa não for a predisposição, melhor será que ninguém use o estatuto de “membro da comissão” para outros fins. Porque há quem vista a camisola da festa, mas por baixo traga interesses.
E esses “fariseus” ainda proliferam por aí, subterraneamente. E são perigosos. Porque usam a festa, a fé e o povo como montra.
Sei, por experiência em contextos geográficos e sociais diferentes, o quanto custa organizar um programa festivo.
Custa em entrega. Custa em esforço pessoal. Custa em dinheiro.
2. Do discernimento.
É aqui que o entusiasmo tem de vir acompanhado de cabeça fria. Discernimento na rentabilização dos recursos. Sejam eles “herdados”, conseguidos por donativos, ou com particular cuidado quando provêm de esmolas.
Esmola é coisa sagrada. Vem de mão que aperta o cinto.Merece ética. Merece respeito.
Tal como noutras organizações, também nestas tudo deve ser claro, transparente e com respeito pelas hierarquias, nomeadamente religiosas. Afinal, é quase sempre uma motivação de fé em Deus e nos Santos que mobiliza os forasteiros. E diga-se a verdade:
Uma festa sem a componente religiosa não é a mesma coisa. Ou melhor, não é festa autêntica. Para os crentes, evidentemente.
Daí que, mesmo sem grandes rigores técnicos, sou de opinião que as comissões de festas deveriam ser “obrigadas” a realizar uma contabilidade mínima. Enquadrada nas normas legislativas e no respeito pelas regras da Igreja.
3. Do dinheiro que sobra.
Com especial cuidado neste período de dificuldades económico-financeiras que atravessamos, é urgente duas coisas: Conter despesas e evitar desperdícios.
E, no balanço final, ponderar com seriedade onde devem ser investidos os fundos que “sobejaram”. É que, adotando uma postura autista, como se “donos” fossem dos contributos de muitos, não são raras as situações em que os “mordomos”, após a festa, se acham no direito de esbanjar os sobrantes.
De acordo com os seus gostos. Para satisfação do seu ego. Sem sequer consultar a autoridade eclesiástica que, no fundo, sustenta a realização de cada evento festivo religioso, derivando depois para o profano.
Festa não é feudo. Donativo não é herança.
Conclusão.
É importante a dedicação comprometida e generosa dos leigos. Colocar à disposição da igreja e do bem comum as suas capacidades.
Mas essa postura só é limpa quando sustentada num descomprometimento material. Com altruísmo de pensamento e de ação.
Festa popular é isso: Povo, fé, música, convívio e “conta certa”.
Porque sem discernimento, o envolvimento vira vaidade. E festa sem fé, vira só barulho.

Nuno Pires
[email protected]

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