Ter amigos verdadeiros por perto é como ter um porto na ribeira. Água mansa, sombra certa, pedra onde a gente encosta a canoa quando já não há braço para remar. É ali que a alma despe as galochas, respira fundo e ganha fôlego para as batalhas de cada dia.
A conexão humana genuína não se finge nem se aluga. É raiz que cresce devagar, mas quando pega não há vento que a arranque. Lembra-nos que pertencemos a um chão, a uma gente, que esta travessia terrestre não foi feita para se andar sozinho.
A vida tem medidas para os afetos. Há os desconhecidos, vultos que passam na feira sem deixar rasto. Há os identificados, com nome e cara arrumada na prateleira da memória. Há os conhecidos, com quem se troca “bom dia” e dois dedos de conversa à porta do café. Há os amigos, que já entraram em casa e sabem onde fica a dor e onde nasce o riso. E há os amigos chegados, família que o sangue não deu mas a vida entregou. Esses são banco de pedra à beira da Ponte românica. Chova ou faça sol, estão lá.
Mas a geometria também se desmancha. E é aí que nasce a hipocrisia da incoerência afetiva. Há conhecidos que já foram amigos. E desses fica um nó cego na garganta.
São gente que dormiu no nosso peito e hoje passa por nós como quem passa por um marco da estrada. Tinham chave de casa, conheciam as divisões da alma, sabiam o barulho que o silêncio faz quando dói. E agora batem à porta com cerimónia, com sorriso de feira, com palavra medida ao grama.
Não são inimigos. Pior. São memória viva do que se quebrou sem ruído. São o copo rachado que ainda se usa por pena, mas já não se enche com confiança.
A incoerência afetiva é essa: ontem éramos porto um do outro. Hoje somos mar alto, com boia de cortiça a fingir que está tudo bem. Ontem havia verdade na mesa, sem toalha nem talher de prata. Hoje há etiqueta, há distância, há frases feitas que não aquecem nem arrefecem.
E dói porque não houve guerra. Houve desgaste, houve orgulho, houve um silêncio que ficou tempo demais sentado no meio da sala. Houve um “logo falamos” que nunca teve tarde. Houve uma ausência que virou hábito.
A hipocrisia veste-se de educação. “Como tens passado?”, perguntam. E a gente responde “bem” com a boca cheia de antigamente. “Temos de nos encontrar”, dizem. E ambos sabem que o calendário já não tem espaço para nós.
É mais fácil ser desconhecido que ser ex-amigo. O desconhecido não tem história. O ex-amigo tem todas, e todas pesam. Carrega o mapa das nossas fraquezas, a morada dos nossos medos, a chave dos segredos que agora moram numa casa vazia.
Por isso, quem tem um amigo chegado que o regue como se rega oliveira em agosto. Que lhe diga as coisas na cara, que lhe peça desculpa sem esperar troco, que não deixe o orgulho fazer ninho entre duas palavras.
Porque desconhecidos há aos montes. Identificados há às dúzias. Conhecidos há em cada esquina. Mas amigo que seja porto, desses a vida dá poucos. E quando se perde um, não é só uma pessoa que vai embora. É um pedaço de chão que deixa de ser nosso.
E a gente fica ali, na Ponte românica, a olhar para a outra margem que já foi nossa. Com saudade do que não soubemos guardar. Com a raiva mansa de quem sabe que a incoerência também mora dentro de nós.

Que a próxima vez a gente escolha ser inteiro. Ou amigo chegado, ou nada. Meias medidas só servem para copos e para quem não tem sede de verdade.

Artigo escrito por Nuno Pires
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