No mundo em que vivemos, ao contrário do que deveria acontecer, existirão muitos sintomas e conexões negativas que, por vezes, até causam injustas intrigas.
Não só, mas também por isso, talvez fosse interessante que alguém inventasse um medidor de energias negativas. Um aparelho pequeno, discreto, que coubesse no bolso, ao lado do coração. Apontaríamos para as pessoas e ele diria, em silêncio: cuidado!
Assim seria possível medir a influência que algumas personagens tentam “infiltrar” nas outras. De múltiplas formas. Sem bater à porta. Entram pela fresta.
Há quem “azucrine” de forma doentia. Gota a gota, como a ribeira quando transborda devagar e vai corroendo a margem.
Primeiro é só uma palavra. Depois um comentário, às vezes incómodo e despropositado. Depois, um silêncio calculado. Até com falinhas mansas… essas são as piores.
Vêm embrulhadas em açúcar, mas, por dentro, trazem espinhos. Fazem-se amigas. Sentam-se à mesa. Dizem “preocupa-te” quando querem dizer “duvida de ti”.
E nós, sem perceber, vamos gastando a paciência como quem gasta cera de vela.
Este mundo tem mesmo de mudar. Para não sermos “obrigados” a aturar certos tipos de gente. Gente que pesa. Gente que escurece o dia, mesmo quando o sol está alto, sobre a ponte. Gente que transforma a conversa numa armadilha e o elogio numa faca pequena.
Imagine-se o medidor a funcionar na Praça. Perto do Pelourinho, por exemplo, onde a história nos lembra o que é justiça e o que é abuso.
Ele apitaria baixinho quando alguém viesse com a máscara de amigo e a alma de sombra.
Na ponte, sobre a água que corre e leva embora o que não presta, ele mediria: “Energia densa. Afasta-te. Respira fundo.”
Junto ao Cruzeiro, onde se pede proteção, ele acenderia uma luz: “Esta pessoa não te soma. Te subtrai.”
Porque há cansaço que não vem do trabalho. Vem da conversa que nos deixou menores.
Vem do olhar que sorri e da intenção que não sorri.
Vem de quem nos chama pelo nome doce e nos trata com veneno fino.
O que nós queríamos era não perder o espírito. Nem a essência.
Nem a paciência, ganhando em troca resiliência.
Resiliência como a pedra antiga da ponte: a água bate, bate, e ela continua lá.
Resiliência como o Castelo que vê a festa e vê a solidão e não se abala.
Resiliência como o jardim na noite fresca de agosto: a brisa vem, vai, e o jardim continua verde.
Se esse medidor existisse, ensinava-nos limites.
Dizia: “Até aqui podes ir. Dali para a frente, não.”
Dizia: “Guarda o teu bom humor. Guarda a tua alegria. Não emprestes a quem devolve ingratidão.”
Porque, sem amor que nos afoite, perdemos a alegria, de manhã, de tarde ou de noite. A alegria não se perde. Guarda-se.
O mundo precisa de menos infiltração negativa e mais transparência ativa.
Menos teatro e mais verdade dita de frente, franca, entre a gente.
Menos gente que censura e mede negativamente os outros e mais gente que se mede a si.
Enquanto o medidor não chega, usamos o que já temos: O arrepio. O aperto no peito. O cansaço depois da conversa e o incómodo emocional que nos atravessa.
O silêncio que pesa mais que mil palavras. Esse é o nosso aparelho. Imperfeito, mas honesto.
E que venham dias em que possamos escolher melhor a nossa companhia.
Dias em que a ponte nos leve para frente e não para trás.
Dias em que o Pelourinho nos lembre da dignidade e o Cruzeiro nos abençoe a caminhada.
Dias em que a ribeira leve embora o que azucrina e traga só o que limpa.
Até lá, sigo escrevendo. Sigo escolhendo a confortável solidão, em vez do bulício vazio. Sigo amando, fluentemente, sem esforço, como o coração sente.
Porque há energias que não se medem. Sentem-se.
E as boas… essas ficam. Como o sol que se põe e não se esquece.
Nuno Pires
16/08/2026













