A vindima voltou ao Douro. Em algumas parcelas começou ainda em agosto; noutras, setembro continua a ser o mês de maior azáfama. O calendário já não é tão previsível como foi, mas há uma coisa que não mudou: durante algumas semanas, a região vive ao ritmo das uvas que chegam às adegas.
Mudam as estradas, muda o movimento nas quintas, mudam os horários e as conversas. Depois de meses a acompanhar a vinha, chega o momento de colher as uvas e começar a fazer aquilo que está no centro de toda esta atividade: o vinho.
É assim há gerações. E é assim que deve continuar a ser.
O vinho é o principal produto da vinha, sustenta produtores e empresas, leva o nome do Douro ao mundo e faz parte da identidade de uma região que aprendeu, ao longo de séculos, a transformar condições particularmente difíceis num produto de excelência.
Mas uma vindima produz mais do que vinho.
Quando as uvas chegam à adega, começa também a formar-se uma quantidade considerável de engaços, películas, grainhas, bagaços e, mais tarde, borras. Na vinha, outros materiais, como a lenha de poda, fazem igualmente parte deste ciclo.
Chamamos-lhes subprodutos. Durante muito tempo, foi sobretudo assim que os vimos.
E se olhássemos para eles de outra forma?
A pergunta pode parecer simples, mas tem ocupado a nossa investigação e abre possibilidades que há poucos anos dificilmente associaríamos a uma vindima.
Porque um engaço não é apenas a estrutura que sustentava os bagos. Uma grainha não é apenas aquilo que ficou depois da prensagem. E um bagaço não é necessariamente o fim da linha.
Estes materiais têm uma composição química complexa e muitos são particularmente ricos em compostos fenólicos — moléculas que conhecemos bem e que apresentam propriedades antioxidantes, antimicrobianas e anti-inflamatórias, entre outras atividades biológicas.
É aqui que entra a ciência.
Nos nossos laboratórios temos trabalhado precisamente nesta fronteira: perceber o que existe nestes subprodutos, extrair e caracterizar os seus compostos, estudar as suas propriedades e, sobretudo, perguntar o que podemos fazer com eles.
E as respostas começam a ser surpreendentes.
Cosméticos. Ingredientes alimentares. Produtos farmacêuticos. Nutracêuticos. Biomateriais.
Aplicações muito diferentes podem começar num material que, poucas horas antes, estava numa adega do Douro.
É esta transformação que me parece particularmente interessante. Estamos perante uma oportunidade adicional de criar valor a partir da mesma vinha e da mesma vindima.
Num território onde produzir uvas exige tanto trabalho, conhecimento e recursos, fará sentido aproveitar apenas uma parte do seu potencial?
É também aqui que a economia circular deixa de ser apenas um conceito que repetimos em conferências e documentos estratégicos. Circularidade não é simplesmente encontrar uma utilização para um resíduo. É conseguir que um recurso permaneça durante mais tempo na economia, criando novas utilizações, novos produtos e, idealmente, novo valor.
O Douro tem uma vantagem extraordinária: já possui aquilo que muitas regiões procuram construir durante décadas — identidade, conhecimento acumulado, matérias-primas de qualidade e um nome reconhecido internacionalmente.
Temos agora a oportunidade de acrescentar a essa história uma nova dimensão.
Não se trata de mudar a vocação do Douro. Nem de imaginar que a cosmética, a indústria farmacêutica ou os biomateriais substituirão aquilo que durante séculos definiu esta região.
Trata-se de acrescentar, não de substituir.
E talvez o maior desafio esteja precisamente aqui.
A ciência já consegue demonstrar o potencial de muitos destes subprodutos. Mas entre demonstrar que um extrato funciona num laboratório e transformá-lo num ingrediente, num produto ou numa empresa existe ainda um caminho considerável.
É nesse caminho que precisamos de aproximar universidades, produtores, adegas, empresas e investidores. Porque a verdadeira valorização só acontece quando o conhecimento consegue sair do laboratório e encontrar uma aplicação real.
E há uma questão que, para mim, não deve ser esquecida: se estes recursos são produzidos no Douro, seria importante que parte do novo valor criado a partir deles pudesse também permanecer no Douro.
Criar novas cadeias de valor, novas competências, novas empresas ou novas ligações entre setores seria uma forma de acrescentar futuro a uma atividade profundamente ligada à história da região.
Nestes dias, enquanto os tratores continuam a chegar às adegas e as primeiras fermentações começam, o essencial continuará naturalmente a concentrar todas as atenções.
O vinho.
Mas, depois de o vinho seguir o seu caminho, talvez valha a pena olhar uma segunda vez para aquilo que ficou.
Pode haver ali muito mais do que imaginamos.
Porque o vinho é — e continuará a ser — o grande valor da vindima.
Mas o valor do Douro não termina na garrafa.
Artigo escrito por Ana Novo Barros- Professora Associada com Agregação, Departamento de Química da UTAD, Investigadora do CITAB
















